Dia dos Aposentados. Precisamos falar sobre isso!

Por Mário Coelho, sócio-autor do Psicologia Gris

O simbolismo da data

O Dia dos Aposentados remonta à época em que ainda éramos os Estados Unidos do Brasil, com capital no Rio de Janeiro e que valorizava o modal ferroviário para escoamento da produção. Em 1923, era sancionada pelo então presidente Arthur Bernardes a chamada Lei Elói Chaves (o distinto senhor da imagem acima) que instituía uma das primeiras caixas de aposentadorias e pensões para os empregados de empresas ferroviárias do país. Iniciativas anteriores até mesmo ao século XX já propunham ações semelhantes no que diz respeito à seguridade social de trabalhadores. Vale a pena dar uma vasculhada na história da Previdência Social e observar, por exemplo, que foram os Correios (em tempos pré-ECT, criada apenas em 1969) a propor a primeira iniciativa em prol da questão da seguridade de seus funcionários ainda em 1888. Quase 60 anos após ao decreto de 1923 é que a Câmara do Deputados aprovou a lei que finalmente firmava a data de 24 de Janeiro como o Dia dos Aposentados.

Feliz Dia dos Aposentados?

Claro que não. Os avanços previdenciários do início do século passado parecem estagnados em um presente de desrespeito, problemas e desafios sociopolíticos enfrentados pelos trabalhadores aposentados. Em 2015 foi aprovada na Câmara e sancionada pela presidente Dilma Rousseff a nova lei que altera as regras concernentes a aposentadoria no Brasil. Não pretendo neste artigo me estender sobre a questão, mas você pode saber mais aqui, aqui e aqui. Ocorre que como toda mudança impactante em nossas vidas, a alteração no famoso fator previdenciário desperta o interesse e preocupação dos aposentados e a realidade é que — mais uma vez — nossas instituições não se prepararam adequadamente para informar a população a respeito, organizar o sistema e fornecer um serviço decente ao cidadão como mostram as inaceitáveis filas geradas para agendamento já no início de 2016. Como se não bastasse, torna-se também evidente que há uma grande rejeição por parte dos maiores interessados na questão sobre as novas regras. Por outro lado, é preciso lembrar que com a crescente nova configuração da demografia brasileira torna-se necessário o debate sobre a remodelagem das bases econômicas no plano da Previdência Social. Também importante é sempre questionar se as manchetes veiculadas nos meios tradicionais de comunicação oferecem um panorama fidedigno em situações propagadas como o tal “rombo” da Previdência. As discussões precisam ser constantes, sem se restringirem ao Dia dos Aposentados e, principalmente, devem mobilizar todos os setores de nossa sociedade e não apenas os atuais beneficiários.

O papel da Psicologia na vida pré e pós aposentadoria

Quando falamos sobre questões que fazem parte de nosso cotidiano social tendemos a jogar um belo lençol de generalizações sobre toda a população para abarcar aquilo que se convencionou apelidar de democracia. Grosso modo, você é um cidadão que deve aceitar as regras/leis que são feitas para resolver problemas comuns à maioria. Acontece que sabemos que no plano cotidiano as pessoas vivem suas vidas de modos diferentes, possuem trajetórias diversas, reagem às vezes de maneiras diametralmente opostas frente as mesmas questões. É preciso cuidado ao tratar do tema aposentadoria, pois muitas vezes a questão política acaba solapando as individualidades dos cidadãos. Numa rápida pesquisa vemos artigos de sindicatos e associações de aposentados quase sempre com motivação partidária difundindo opiniões generalizantes principalmente sobre a dita obrigação de se trabalhar após a aposentadoria por conta do cenário de dificuldades econômicas que o país enfrenta. O que tais organizações esquecem é que muitas vezes é no ambiente profissional que muitos aposentados encontram uma rede apoio e relações fortificadas que contribuem com sua socialização. A pesquisadora Lúcia França lembra que há diversas formas das pessoas lidarem com sua vida pré e pós aposentadoria

Muitos gostam do que fazem, da empresa e/ou das relações sociais mantidas, e não querem se aposentar. Outros querem se aposentar mas desejariam continuar com uma atividade profissional. Outros querem realmente parar de trabalhar mas não têm planos sobre o que fazer após a aposentadoria. Pode existir ainda uma certa euforia que leva algumas pessoas a dizer que irão realizar vários projetos, mas dificilmente elas saberão detalhar seus desejos na hora de se aposentar

Se os caminhos são diversos, as dúvidas também. Por isso é importante que as empresas contem com um plano de preparação para a aposentadoria (PPA) para que trabalhador passe por este processo de mudanças de modo menos conflitante. Ainda são raríssimas as instituições ou empresas que contam com um programa deste tipo e por isso faz-se importante que os trabalhadores se mobilizem neste sentido para que ocorra uma ampla implantação destas iniciativas. Tais programas contam com psicólogos que auxiliam o profissional que está no momento pré-aposentadoria, promovendo reflexão e planejamento para a construção de sua nova configuração de vida.

Conclusão

Em que pese que o momento político e econômico do país não contribua para uma celebração de conquistas na área da seguridade social de nossos aposentados, temos o dever de ao menos utilizar o ensejo da data para refletir sobre esta questão fundamental na vida de todos (inclusive dos jovens trabalhadores). Cobrar ativamente soluções para os desafios que nossa população enfrenta e enfrentará a respeito do tema é dever de todo cidadão. No plano pessoal é preciso respeitar as individualidades e oferecer amparo para o sem-número de perguntas, inseguranças e frustrações que podem surgir quando a realidade da aposentadoria passa a fazer parte de sua vida. Deixo como última sugestão para contribuir na sua reflexão pessoal neste Dia dos Aposentados que procure assistir aos filmes Os belos dias da diretora francesa Marion Vernoux e Lugares Comuns de Aldofo Aristarain, dois belos registros audiovisuais sensíveis a este momento. Aproveite e conte pra gente aqui nos comentários sobre sua experiência como pré-aposentada(o) ou aposentada(o) e contribua com o debate!


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