Sobre a possibilidade do cuidado materno

Uma reflexão que não nos permitimos atualmente em nossa sociedade

Por Lucas Pires, Psicólogo Clínico e Psicanalista

“É muito bom pensar que alguém está olhando por nós, cuidando da gente.” — O Menino de Ouro

O nascimento, o inicio da vida fora do útero. Mãe e seu bebê vão se encontrar pela primeira vez, e agora se inicia uma nova jornada para uma vida que se desenvolve através dessa relação. Mas por que estudarmos a relação da mãe com o seu bebê? Essa é uma pergunta que pode nos guiar nos estudos da obra de D. W. Winnicott (1896–1971), pediatra, e importante psicanalista britânico que nos deixou suas contribuições sobre esse campo. Partimos da concepção de que somos animais dependentes, já que “… o homem só pode encontrar a si mesmo em sua relação com os outros, e na independência conseguida através do reconhecimento da dependência.” (Phillips, 2006, p.29). Tendo em mente esse caráter de dependência nas relações, aqui não devemos esquecer que na relação mãe-bebê, a relação primordial que tem função integrativa no self (seria a parte central da personalidade de cada um) do novo indivíduo, nós falamos de uma unidade, entendendo que sem a presença dos cuidados maternos esse bebê não tem a capacidade de vir-a-ser (existir como indivíduo), por mais que possua uma tendência inata para isso. Sem os cuidados, nada pode fazer essa tendência. Por se tratar de uma unidade, não falamos apenas da dependência do bebê que necessita dos cuidados maternos, mas também da mãe que se voltará completamente para ele, e assim oferecerá todos os cuidados necessários, por tê-lo (o bebê) como parte de si mesma.

Do mesmo modo que o bebê precisa de um ambiente favorável para se desenvolver, e que poderá ser oferecido pelo cuidado materno, a mãe também precisa estar inserida em um ambiente favorável para que assim ela possa se dedicar a seu bebê. É fundamental que o ambiente providencie uma cobertura protetora para essa mãe que se encontra vulnerável nesse momento. Sem isso, ela não poderá se devotar apenas para o seu bebê. Nada deve abalar a unidade. Em um primeiro momento, o pai “… é absolutamente necessário para proteger a mãe…” (Winnicott, 1990, p.90), e assim, quando possível, seria a melhor opção para cuidar do mundo que circula a mãe e seu bebê.

O que foi dito até agora é válido tanto para mães saudáveis, quanto para mães que não consigam se devotar para seus bebês. Naturalmente existem mães que possam não conseguir desenvolver esse estado de preocupação por conta de conflitos internos seus, e que façam com que ela fique voltada para si mesma, sem conseguir oferecer boas experiências para seu bebê. Nesse suporte, além do pai, começam a aparecer outras figuras que podem auxiliar essa mãe, pois “A existência de uma família e a manutenção de uma atmosfera familiar é o resultado da relação dos pais com o setting social no qual estão inseridos.” (Winnicott, 1957/2005, p.41). Essas relações são compreendidas como círculos que estão inseridos um dentro do outro. O bebê protegido pela mãe, a mãe protegida pelo pai, a família protegendo-os, e o grupo social que os circunda exercendo algum tipo de contenção também (pelo menos se espera que isso ocorra).

“Mãe protegendo o bebê e ambos sendo protegidos pelo pai, que estão inseridos em uma família, grupo social, etc.” — Cuidar implica em dependência para poder cuidar e ser cuidado

Em alguns casos, onde a mãe esteja com dificuldades por conta de seus conflitos, sem um ego (parte nossa que lida com a realidade e a vida psíquica) forte o suficiente para ofertar boas experiências ao seu bebê, mesmo essas figuras que estão lá presentes para ajuda-la podem não ser o suficiente, dada a intensidade dos conflitos da mãe. Nessas situações, o analista pode entrar e oferecer um cuidado baseado no cuidado materno, técnica que Winnicott pode desenvolver observando as mães e seus bebês. Isso vai oferecer um sustentar para o ego da mãe, fortalecendo-o para que ela possa se dedicar com devoção, em um primeiro momento, ao seu bebê. Com isso, não podemos nunca esquecer que a mãe necessita de algum tipo de auxilio para exercer sua maternagem de forma satisfatória. Se ela teve uma boa maternagem, ela sabe o que fazer. Então, apenas permita que ela possa ser mãe para o seu bebê.

Referências

Phillips, A. (2006). Winnicott. São Paulo: Ideias & Letras.

Winnicott, D. W. (1957/2005). Fatores de Integração e Desintegração na Vida Familiar. In A Família e o Desenvolvimento Individual. São Paulo: Martins Fontes.

Winnicott, D. W. (1990). Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago.

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