Epílogo #PílulaRPG

O cursor pisca na tela do computador, impaciente. Ele não sabe o que irá revelar até o último segundo que separa a ponta do dedo do escritor e a tecla quadrada de pontas arredondadas no teclado. Num instante, o cursor desaparece de uma posição, para reaparecer um pouco mais à direita, após deixar um rastro em forma de símbolo.

Símbolo que talvez o próprio cursor não entenda. Será que ele precisa?

Será que precisamos entender todo o rastro que deixamos para trás?

O escritor inicia sua jornada pelo mundo dos textos, ciente de que será a última. Ele escreve como se sua vida dependesse disso. E dependia até alguns meses atrás. Seus dedos voam e formam um balé bem ensaiado e de ótimo compasso. Letra e palavra. Frase e parágrafo. Capítulo e, por fim, livro.

Alguém bate do lado de fora da porta. Forte, sem medo de assustar quem quer que estivesse do lado de dentro.

Uma pausa o faz pensar, com pesar, dos grandes momentos que antecederam a queda. Sua mente viaja até sua esposa, hoje já falecida, e aos seus filhos, hoje desaparecidos. Um choro é esboçado, mas a lágrima não chega a correr o rosto daquele homem. Ela não precisa, se fez importante só por estar ali naquele momento, o fazendo companhia.

A cadeira que o acomoda e a mesa que sustenta seu fiel e único amigo continuam resolutas, alheias ao fim dos tempos que se aproxima. De fato, elas permanecerão ali por muito mais tempo, muito além do momento em que o escritor irá se levantar para nunca mais voltar.

Outra batida forte do lado de fora da porta. Pouco tempo depois, o vidro da janela é quebrado.

Um pouco antes do escritor descansar a mente após teclar o derradeiro ponto final em sua obra, seu celular resolve lhe promover um último momento de paz. Sua música favorita, uma velha canção que tocava na abertura de um seriado famoso de televisão começa a ser ouvida pelo quarto. O homem sorri. A melodia circula pelo ar, como alguém que se liberta de uma jaula. Ela voa, rodopiando por entre a cama e os velhos livros guardados logo abaixo. Entra pela fresta do guarda-roupa, apenas para poder tocar as peças que lá restavam guardadas. Flutua pelo quarto, entrando sem pedir licença para dentro dos ouvidos do escritor, apenas para lhe causar prazer.

E, por último, viaja em direção à janela quebrada, apenas para ser abafada por aquela coisa que desejava entrar.

Mais uma batida e a porta se abre. E com ela, o fim adentra o quarto.

O documento é salvo no computador, o arquivo é enviado para um fórum qualquer que teimava em resistir nesses tempos de fim do mundo. Uma versão também é enviada para uma lista de amigos, mesmo que a maior parte destes já não estivesse mais entre os vivos. O computador é desligado. A cadeira se afasta com a força das pernas que se levantam ao sustentar o corpo para cima. Um movimento rápido e certeiro desloca o teclado toda a força possível na direção da cabeça daquele monstro.

O teclado sempre lhe foi uma arma. Agora, isso já não era uma metáfora. Há alguma triste ironia nesse momento.

O monstro cai, ainda emitindo sons por entre suas cordas vocais mortas. O monitor é lançado sobre sua cabeça, e, enquanto vai de encontro a ela permite-se utilizar todo o peso de uma vida, na esperança que surta mais efeito.

Mas o monstro continua lá. Um novo golpe em sua cabeça. Mais um. A cada golpe, um som. Já não se sabia se era um grito do escritor, ou o esfacelamento de carne morta, do monstro.

Maldito zumbi, ele deixa escapar.

O silêncio do fim da batalha é interrompido pelo rock progressivo que começa a tocar na playlist do celular. Por um segundo, o escritor havia pensado que estava terminado.

Até ver o segundo monstro surgir pela porta.

Psiu, leitor. Você pode encontrar mais textos aqui.