Masculinidades negras e seus mecanismos | Reflexão

Começar este tipo de texto-relato é sempre a pior parte.

Escreve, apaga. Escreve de novo, apaga de novo

Não por ser difícil, mas por não saber qual aspecto falar primeiro. Somos tão plurais, com vivências tão diferentes dentro de uma mesma vida, que parece injusto elencar uma para dar o início. Vou me esforçar para contar coisas que não costumo contar, e dar voz a sentimentos que talvez só as pessoas mais próximas saibam (ou realmente entendam).

O motivo de eu estar escrevendo isto aqui

Em uma conversa, surgiu a oportunidade de escrever um pouco sobre uma masculinidade negra e suas nuances. Mas, qual masculinidade negra? É extremamente contraproducente eu tentar transformar a minha negritude em algo universal. É cair naquele engano da história única, que a Chimamanda fala (e tantas, tantas outras pessoas também falam): um corpo que diverge da norma estabelecida não pode ficar a cargo de representar todos os seus semelhantes. Não sei precisar a idade, mas em algum momento da minha vida, eu comecei a me tornar mais consciente de quem eu era e dos papéis esperados que eu desempenhasse na sociedade. Quanto mais eu avanço em idade, mais eu percebo a sucessão de eventos mais ou menos díspares que montam a minha experiência. Vivências gerais, vivências de exceção e de regra. Então, como é possível eu falar sobre uma masculinidade negra que dê conta de mais masculinidades negras?

Sendo assim, vou apresentar várias coisas e torcer para que você que está lendo se identifique com alguma delas. Mais que isso: vou torcer para que você não se identifique com nenhuma delas, especialmente você, leitor homem negro, para mostrar o real ponto deste texto: Temos vidas plurais e precisamos falar sobre elas, todas elas. Certo?

“… Why do you write like you’re running out of time?”

Meu nome é Rafael, e eu tenho 28 anos

e estudei em escolas particulares a minha vida inteira. A de nível fundamental tinha procedência católica: víamos freiras para todos os lados, tínhamos aula de ensino religioso (que era basicamente catolicismo), crucifixos em todas as salas e um comportamento razoavelmente contido. Éramos crianças, então obviamente não tinha como conter tudo. É desnecessário dizer, mas eu preciso comentar: eu sabia que era negro, mas não realmente entendia isso.

Eu tive algumas dicas, claro: aulas de história em que o professor ou professora falava sobre África e todos os demais alunos e alunas olhavam para mim instantaneamente. Não sei se, de fato, eram todos os alunos, mas eu percebia assim. É o que importa, no fim das contas. Ou então, lembro de ser escolhido logo no início para os times de futebol na educação física, mas o mesmo não acontecia para os de vôlei (eu hoje sou ruim em qualquer esporte, mas acho que na infância era mediano na educação física, ao menos). Um pouco mais a frente no tempo, sempre rolavam aquelas ̶m̶a̶l̶d̶i̶t̶a̶s ̶listas de quem é o mais bonito da sala. Eu corria pra não ver, mas sempre acabava cedendo e indo atrás do resultado. Consigo lembrar de pelo menos duas, em que meu nome aparecia em último e penúltimo lugar.

Lembro que só depois de algum tempo mais velho, já fora dela, que eu fui perceber o quão pequena era a quantidade de alunos negros lá dentro. Eu sentia, sim, que entravam mais ao longo dos anos, mas nunca seriam o suficiente, sabe? Na sala de aula, sempre havia pelo menos um casal, se não me falha a memória. Eu nunca achava o “meu par” uma pessoa bonita. Depois volto nisso, mais pra frente.

Apesar do que eu falei, eu amava aquele colégio, sinto falta até hoje. Só não sinto de tudo, obviamente.

Já a escola de nível médio era consideravelmente almejada pelas pessoas da cidade. Não era religiosa, tinha aulas especiais (“Turma F”, das pessoas fodas, como muitas escolas-cursos preparatórios possuem). Foram três anos sempre fazendo uma prova no final do ano anterior para buscar um desconto na mensalidade. Eu não me saía mal, mas sempre senti que podia ter um resultado melhor. Foi nessa escola que eu posso dizer que tive uma noção de mim como um corpo negro. Adolescência não é fácil para ninguém, né? Entre amores (sempre) não correspondidos e transgressões que fazem parte da idade, existem dois grandes momentos racializados que eu não me esqueço: meu melhor amigo na época xingando um outro menino de macaco e uma garota do grupo dizendo coisas como “tinha que ser o preto” ou “nunca ficaria com um menino negro”. Esta última coisa, na época, foi bem dolorosa e veio como um soco bem dado. Daqueles que você sabe que seu oponente pode dar, mas que você não espera que ele de fato o faça.

O que é legal é pensar em como esse tipo de comentário repercute nas pessoas. O tal menino que foi xingado de macaco (sem ele saber, diga-se de passagem), eu nem o considerava negro. Só fui começar a engatinhar no entendimento do colorismo faz poucos anos. O xingamento, sabido ser um xingamento, tendo sido proferido como tal, revela um pouco sobre como, no fim das contas, ainda podemos tentar rebaixar pessoas por qualquer coisa. Especialmente as coisas as quais elas não têm controle. É um dos mecanismos do nosso racismo estrutural.

“Você não é negro neeeegro, só moreninho.”

Essas duas escolas me davam visões de mundo completamente diferentes, com exceção da renda, já que ambas tinham um custo que não era pequeno. Meus pais lutaram demais para conseguir manter a mim e ao meu irmão nelas. Meu irmão, aliás, conseguiu passar para o Pedro II e isso foi um alívio incrível nas contas de casa. Tenho ótimas lembranças de ambas, mas havia um sentimento que se repetia todos os anos na primeira escola (e em alguns momentos da segunda): eu era uma pessoa negra em um ambiente bem branco. Os mesmo olhares nas aulas de história se repetiam. Agora com um pouco mais e consciência, eu já começava a questionar esse tipo de coisa. Uma vez eu deixei escapar um “não precisa me olhar, gente, eu não vim de lá”. Não lembro como repercutiu, nem como me senti na hora.

Eu falei sobre não achar outras meninas negras bonitas na infância, né? Na adolescência isso mudou um pouco, mas virou acho que o pior produto do machismo e do racismo juntos: a sexualização do corpo. Só bem mais tarde eu passaria a pensar o quão maldoso é apenas enxergar carne ao olhar para uma mulher. Especialmente se tratando de uma mulher negra. No ensino médio, se antes eu não via as meninas negras como bonitas, as garotas agora eram gostosas. Meio que não havia o espaço para serem inteligentes, ou legais, ou mesmo bonitas. As que eram vistas como bonitas provavelmente tinham traços mais europeus (e voltamos, de novo, a falar de colorismo): cabelos alisados, peles mais claras, narizes com ponta (veja só, meu nariz mal tem ponta, eu lembro de comentar isso com um amigo na infância e ficamos comparando narizes).

O ponto é, por que elas nunca foram alvo do meu desejo romântico? Hoje, no momento em que escrevo esse texto, namoro uma mulher negra, indiscutivelmente negra (colocar a palava “indiscutivelmente” doeu mais que parece), e nosso relacionamento tem um pouco mais de quatro anos, sendo dois deles morando juntos. Eu disse lá em cima que tinha 28 anos, né? Então. ela foi meu primeiro alvo romântico negro. Mas, tão tarde, por quê?

Paro por aqui, e sigo pro próximo ponto possível de vivência para as ideias que quero falar neste texto.

Meu nome é Rafael, e eu sou nerd

e eu amo esse aspecto da minha vida. Jogos de computador, de videogame, livros e mais livros. Quadrinhos, filmes e um montão de séries. Infinitas cartas de Magic: the Gathering. RPG para todo o resto da vida. E tudo isso economizando cada moeda suada, fazendo promessas e mais promessas de notas melhores, até mesmo trabalhando meio período na época da escola.

Como eu disse, não acho que existam adolescências fáceis. Claro que cada um e cada uma tem seu estilo de vida, com seus tropeços ao longo da estrada, mas não vou fazer comparações. Ser nerd e negro, olhando de hoje para esse momento passado, foi algo bem estranho. Eu mal entendia (ou sabia mesmo) sobre conceitos como diversidade, representatividade ou estereotipação. Embora eu nunca tenha sido um leitor ávido de quadrinhos (na forma mais clássica da coisa, de ter todas as edições e acompanhar tudo), sempre foi um mundo que me fascinou. Como o RPG começou cedo na minha vida, me vi num espaço onde eu podia criar e vivenciar as histórias que outras pessoas apenas se aventuravam em ler. Bem prepotente isso, né? Na época eu super me achava por isso.

Esses não são meus, mas eu queria que fossem.

Quando se pensam em histórias, especialmente aquelas ao redor do imaginário fantástico medieval, se tem pouco espaço para se pensar a fundo na cor de pele do protagonista. Isso não é dado, então obviamente ele (e não “ela”, aliás) é branco. Com uma voz imponente ou cansada da vida. Digo, você tem dragões para cuidar, certo? Não faz diferença se o nariz do herói é aquilino ou redondo.

Só que faz, né? Faz sim.

Minha adolescência foi durante aquela época em que passava desenho da Liga da Justiça, lembra? Super Choque também, depois. Nunca achei que devia gostar do John Stewart, mas ele era um cara negro, e era um Lanterna Verde, então acho que eu devia me sentir representado por ele. O Virgil Hawkings, por outro lado, eu meio que não fazia muita questão disso. Talvez tivesse a ver com a personalidade dele, não sei. Mais de um homem negro já me disse ser fã de uma passagem específica de Super Choque, aquela quando ele vai pra África:

“Na África, eu não sou um garoto negro, eu sou só um garoto. É assim que você se sente o tempo todo, né?”

Estou aqui falando de adolescência, mas a gente meio que fica com esse sentimento eterno de querer ser uma pessoa única. Adivinha: se você fizer parte de uma minoria política, provavelmente só quer ser “mais uma pessoa”. Só isso. Sem rótulos adicionais.

Lá em cima eu linkei um texto muito importante na minha vida, e se você não o leu, vou linká-lo aqui de novo, porque tudo o que eu falo lá cabe aqui. Daquele texto, o que eu repito aqui é que questões raciais são assuntos não muito explorados nos RPGs mais populares. Digo, soa estranho pensar em racismos quando você possui, de fato, outra raça compartilhando o mesmo mundo que você, não? O que esses jogos costumam fazer, na maioria dos casos, é informar possíveis origens das diferenças, bem como bônus e penalidades em atributos e habilidades diversas (quantos tipos de elfos existem?). Quando se tem o mundo para salvar das garras de um terrível vilão, não se pensa na cor do protagonista, certo? E, ao cair nesse erro, essa questão não é tocada.

Jogadores brancos não pensam essas coisas. Não porque não podem, mas porque não precisam. Então, quando você, negro, levanta essas questões para dentro do jogo como forma de tratá-las lá também, soa estranho. Fora de foco. Desnecessário. Somos seduzidos para esse mundo onde acreditamos de fato subverter as regras do nosso, mas acabamos por reproduzir as mesmas tiranias.

Filmes e séries, então? Nem se fala. Aquela coisa costumeira de ter personagens negros contadinhos. Ou, no caso de séries, quando novos entram, acaba sendo um sinal de que algum antigo deve sair. Aqui no Brasil não temos aquela cultura de “programas feitos por pessoas negras para pessoas negras”, não de forma massificada. Temos lampejos disso (Um Maluco no Pedaço? Eu, a Patroa e as Crianças? Todo Mundo Odeia o Chris?… não são exemplos nossos, né?), e como racismo é um assunto que a população branca não acredita embora acredite piamente em racismo reverso, a gente acaba tendo que pescar coisas aqui e ali, em programas e quadros aqui e ali.

Você deve ter assistido ao Pantera Negra, né? Deu tanto medo de que o filme fosse ruim e que nós (pessoas negras) teríamos que falar bem dele mesmo assim (e pode ter certeza que falaríamos!), mas quando saiu, foi aquele estrondo.

Quando me perguntam o que eu mais gostei no filme do Pantera Negra, eu menciono esse vídeo, essa sensação. “All the time? ALL THE TIME!”

Acho que durante a minha adolescência, eu não teria bagagem suficiente para aproveitar esse filme. Não da forma como aproveitei hoje. São outros momentos de sociedade, é verdade, mas também é outro momento como indivíduo. A falta de representatividade que me afligia sempre me fez pensar em um exercício de imaginar todos eles negros. Não “uma contraparte negra”, mas simplesmente negros. Acho que esse tipo de pensamento que foi semente para eu hoje ser da opinião de que o Luke Cage precisa ser interpretado por um ator negro, mas o Batman não precisa ser branco.

Uma paródia de Hamilton, colocando o Batman no lugar principal e, veja só, interpretado por um cara negro.

Esse vídeo aí em cima, por mais simples que seja (e não é, hein, achei super bem feito), me causou algo bem único: pensar que eu também poderia ser o Batman.

Veja, eu não defendo vigilantismo. Nem por uma fração de segundo. Mas gosto dessas histórias em séries, quadrinhos. E nunca na minha vida me passou pela cabeça a possibilidade de que o Bruce Wayne pudesse ser negro. Mas por que eu não poderia imaginar esse bastião da cultura pop sendo um cara com a cor de pele igual a minha, ou o cabelo igual ao meu, ou tamanho e formato de boca igual à minha?

Quando falo de representatividade em cultura pop, não falo apenas de “coloca um cara preto aí e tá tudo certo”. Falo de contar novas histórias, e também de repensar histórias antigas sobre essas personagens, atualizando-as pelo contexto. Deveria ser razoável pensar como certas coisas afetam pessoas de formas diferente, especialmente por serem corpos diferentes. Quando a você é relegado sempre o mesmo papel (o soldado honrado, o melhor amigo do protagonista, o cara musculoso, o alívio cômico), você começa a pensar que só pode ocupar esses espaços.

Pior, ao não se ter cuidado sobre como certas coisas afetam homens negros de forma distinta que homens brancos, cria-se uma maldade quase que invisível: ela realça a diferença, mas só é notada por uma parte do público. Este, ao perceber e acusar a diferença, especialmente apontando como a outra parte não percebeu, vez por outra é acusado e “inventar um problema”. Posso estar falando de personagens, também falo daquela eterna discussão maldita que as pessoas (especialmente as brancas) teimam em fazer sobre “pessoas negras são as que enxergam racismo em tudo” e “se pararmos de falar sobre racismo, ele acaba”.

Já deu, né, gente?

Deixo aqui um texto onde falo um pouquinho sobre isso, tomando como parte uma reflexão ao longo da tradução de um RPG que eu gosto muito, o Sombras Urbanas:

O texto tá grande, né? Espero que, como eu desejei no início, ele tenha te tocado de alguma forma. Não há nenhuma lição nele, nenhum objetivo a não ser compartilhar um pouco sobre uma masculinidade negra.

Me conta a sua.

Tem tanta coisa que não deu pra falar ainda, então eu vou falar sobre isso depois, em outro texto, pode ser? Sinto que minha masculinidade passa pela escola da infância, a da adolescência, a relação com a cultura pop e o RPG. Sinto que passa pelas duas faculdades que frequentei, os cursos que cursei, e os trabalhos que fiz. Passa pelos meus amores e desamores também, pela relação que meu corpo negro passa na hiperssexualização/fetichização através olhos alheios, pelo que se espera de um homem negro “chefe de família”, e como fica a minha autoestima em relação a tudo isso.

Já viu? Veja.

A gente fica combinado de falar sobre isso no próximo, então.

Rafael "psicopomp0" Cruz

Written by

Navegando entre realidades, uma história por vez. https://about.me/cruz.rafael

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