“Nego é foda.” Pior que ele, só o racismo carregado nessa expressão | Reflexão

Mais do que ser proibida ou censurada, essa expressão deve ser pensada.

Você já reparou quantas vezes no seu dia usa os termos “nego” ou “neguinho”? Assim, como quem não não quer nada, em algum momento para generalizar algo que alguém fez, ou para tornar dono da ação alguém “desconhecido”.

Antes de prosseguir com este pequeno texto, eu gostaria de ressaltar duas coisas: a primeira é que vou utilizar as variantes masculinas das expressões, nossa língua portuguesa se esconde em termos masculinos para utilizar o gênero neutro e essas expressões são um bom reflexo disso; a segunda coisa é este texto obviamente não é definitivo sobre o tema, é apenas um punhado de pensamentos mais ou menos organizados e embasados sobre algo diário, ainda que quase imperceptível.

“Pô, mas branco é foda, né?”, “Aí já viu, né? Branquinho vai lá e faz merda”, “Meu branco”, “Branco não tem noção, né?”.

Não fez sentido, né? Chega a ser estranho, causar alguma inquietação. Soa simplesmente como uma expressão errada. Mas por que, quando usamos nego/neguinho no lugar, a expressão passa a fazer sentido? Há um trabalho (bem curto, apenas nove páginas) que fala um pouco sobre o uso dessa expressão. Você pode lê-lo aqui. Eu vou tentar resumir de uma forma que não fira o autor original. Como este não é um texto acadêmico e tampouco pretende ser, não colocarei referências, mas elas existem e você pode consultar na seção de referências do link mencionado. Caso eu encontre mais textos, links e posts sobre o assunto, eu vou complementando aqui.

Para que duas pessoas criem uma relação de significância entre termos, é necessário que as pessoas possuam uma relação entre si a priori. Não dá pra colocar duas pessoas estanques do tempo e do espaço e dizer pra elas “não temos wifi, conversem entre vocês”. Dessa necessidade de relação interpessoal prévia que surge o contexto para que seja utilizado um termo ou outro para representar algo na relação.

Deixa eu fazer uma pausa nesse assunto, para comentar um pouco sobre relação e contexto.

Sempre que (pessoas brancas) me perguntam qual o termo que elas devem usar, se o “certo” é falar negro ou preto, eu digo que depende. Depende de quem está falando, com quem está se falando, sobre quem está sendo falado. O texto ao qual faço referência utiliza o conceito de que a palavra é algo neutro, mas significa-se no contexto. Tendo em vista especialmente os movimentos de revolução em que estamos, há um trabalho quase que indireto para ressignificar expressões. Nesse trabalho, pessoas negras irão utilizar termos como preto ou nego/nega/neguinho/neguinha buscando uma nova significação.

Faz sentido, né? São expressões as quais estamos acostumados a serem utilizadas de forma pejorativa. Ao reinventar o sentido delas, utilizando como resistência e autoafirmação (e até carinho), é como se tomássemos o controle. Da mesma forma que estamos tentando (e conseguindo) com nossas próprias vidas e narrativas. Acho que mais do que poder ou não poder falar esse ou aquele termo, acredito que é válido refletir sobre ele. Sobre o que ele pode ter carregado em si, mesmo que não seja a sua intenção no momento.

Sobre “negro ou preto”, que nem é intenção deste texto, eu gosto de indagar a pessoa qual termo ela usaria para falar comigo e sobre mim, se não me conhecesse. E pergunto o motivo. A resposta comum para o motivo costuma ser “parece menos ofensivo”. Pronto, eis a resposta. Se há uma via que soe menos agressiva e se eu não conheço (ou tenho intimidade com) a pessoa, melhor tentar ir pelo caminho mais seguro.

Pronto, pausa feita e terminada, voltemos ao conteúdo sobre o qual quero falar.

Tendo o contexto em mão, digamos, da escravidão negra no Brasil (que, de forma oficial e regulamentada, durou quatro quintos da nossa história, e que se desdobra de várias formas nos dias de hoje), podemos pensar um pouco nas relações de poder formadas desde então. A população escravizada, trazida de diversas nações africanas para cá, não era vista como pessoas, como gente. Era, acima de tudo, um bem. Mas, mais do que isso, era algo “não humano”, não digno das relações com as quais humanos estão acostumados a ter.

Hoje, ao utilizarmos nego/neguinho, estamos geralmente fazendo uma correlação de uma ação danosa, não inteligente ou moralmente duvidosa. É uma forma de indeterminar um sujeito, mas culpabilizá-lo por fazer algo ruim. Quando se pensa em uma das possíveis origens do termo, temos uma distinção entre o uso de “negro” (com r, dito em contextos formais por pessoas consideradas importantes) e “nego” (sem r, usado para diferenciar o anterior, para não criar embaraço do uso de um termo formal em uma situação informal). Essa distinção, acredito, é importante para pensar os motivos pelos quais “nego” se tornou um alvo linguístico de ações sem um indivíduo identificado (já que o escravizado não é considerado gente), mas ainda culpado da ação.

“Mas é uma expressão racista?”

Contexto, intenção, relação prévia entre os falantes. Essas são algumas das coisas a se levar em consideração antes de tentar responder a pergunta. Está longe de ser um consenso. Acredito que só com uma análise real (e não só para essa expressão, inclusive), a gente pode ganhar mais argumentos para pensar em como aquilo que falamos, direta ou indiretamente, reforça um status quo. Muitas pessoas ainda hoje acreditam que racismo é “odeio negros! morram todos!”. Ok, isso é algo terrível e existe sim, mas racismo, especialmente um racismo estrutural como esse nosso brasileiro, se dá em diversos níveis.

E um deles é a linguagem.

“Eu conheço diversas pessoas negras que também falam isso.”

A linguagem, segundo algumas linhas de pensamento (de Linguística, mas também de Psicologia e Filosofia) constitui um grande pilar estrutural na nossa vida. Pensar algo pode ser interpretado como dar forma a uma ideia e expressá-la. A gramática, aí, entra como uma caixa de ferramentas para isso, e suas regras nos dão mais ou menos peças para montar esse quebra-cabeça.

Ao falarmos “nego/neguinho”, estamos utilizando de uma expressão que (espera-se) estar de comum acordo tanto para quem fala quanto para quem ouve. Ninguém faz o exercício de construir a representação da fala como “algo desempenhado por uma pessoa negra”, mas ainda assim é algo reproduzido talvez com bases bem similares a uma de suas possíveis origens: aquela lá em cima, que fala do uso em situações informais.

E mais: por se tratar de uma fala informal, é mais que evidente que ela seja incorporada na fala da população. O pulo do gato é perceber que naturalizar algo não o torna mais certo. Então há uma boa chance de você ser uma pessoa negra e achar que eu estou falando bobagem e fazendo uma problematização chique, ou ainda de você ser uma pessoa não-negra e estar cansada de ver pessoas negras usando essa expressão.

Fica de boa, meu papo é sobre reflexão, não censura.

Se você não quiser concordar, tudo bem. Eu reitero meu convite para que você leia o trabalho, busque as referências e tire suas conclusões. Se mesmo assim você quiser usar nego/neguinho, vá em frente.

Mas, se você pode utilizar “cara”, “pessoa”, “gente”, por que insiste em “nego”?


O texto original é Análise Semântica e Pragmática dos Significantes “Neguinho(a)”, e “Nego(a)” no Século XIX e no Mundo Contemporâneo. É do Gabriel Nascimento dos Santos (UESC).

Em tempo, um grande amigo meu, que manja muito de linguagem, me enviou algumas referências adicionais. Conforme eu for terminando e absorvendo a leitura, vou complementando por aqui:

As palavras nego e neguin no português brasileiro — um estudo linguístico, de Cleberson Luiz Côrtes de Carvalho.

“Nego” também indetermina sujeito em Salvador, de Valter de Carvalho.

Rafael "psicopomp0" Cruz

Written by

Navegando entre realidades, uma história por vez. https://about.me/cruz.rafael

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