15.4.16 #PílulaRPG

Dia 15 de abril.

Faz um pouco mais de um mês que aconteceu. Hoje eu começo a perceber o impacto real de tudo aquilo que eu vivi e não sei bem onde isso vai dar. Vou documentar sempre que conseguir nesse caderno tudo o que eu puder, na esperança de que possa servir pra alguém em algum momento.

Sinto que deveria começar pelo começo. Há mais ou menos um mês, quando eu estava saindo de manhã para a faculdade, percebi um saquinho amarrado num canto do meu quintal. Era pequeno, eu quase o deixei passar. Só chamou minha atenção porque eu precisei conferir se estava levando um livro que iria emprestar a uma amiga. Bom, estava lá.

O saquinho era de pano, eu acho. Pelo menos, foi o que eu pensei na hora. Estava amarrado com um tipo de fio bem brilhoso, bem fino. Parecia resistente.

Resolvi pegar. Foi aí que começou o meu erro.

Assim que eu encostei no saquinho, senti uma corrente gelada atravessar a minha mão, subir até a cabeça e descer até o dedão do pé. Assustador. E não só isso. Ao segurar aquela coisa, percebi que havia uma pequena mancha no chão, bem no lugar onde ele estava.

Mancha preta. Acho que era sangue.

Era sangue, sim.

Larguei aquela coisa nojenta bem ali mesmo. Saí pelo portão e fui pra aula. Aparentemente, nada de anormal no resto da manhã. Um pouco depois do meio-dia recebo uma ligação da minha mãe, perguntando porque eu não havia ido para a aula. “Mas eu estou na faculdade agora, mãe” eu respondi. “Não mente pra mim, acabei de te ver no ponto de ônibus. Eu até acenei, mas você não me viu” ela me disse.

Não preciso nem dizer que o resto da conversa foi estranha. No fim das contas, voltei pra casa. Passei um tempo numa longa conversa com a minha mãe sobre ela ter se confundido.

Não lembro de ter visto o saquinho no quintal, quando cheguei em casa naquele dia. Droga, eu estava aéreo. Devia ter prestado atenção.

O resto da semana foi normal. Nada fora do ordinário. Só fui lembrar de procurar o saquinho alguns dias depois, mas ele não estava mais lá.

Passados uns oito dias do ocorrido, tive um imprevisto que me impossibilitou de ir para a faculdade. Passei a manhã de cama, com febre. Acordei num susto, como se algo muito terrível tivesse acontecido. Peguei meu celular e, sei lá, não tem forma melhor de descrever o que eu vi: aparentemente, eu havia trocado mensagens com todos os meus contatos.

“Quê?” eu pensei. Foi o pensamento mais sincero que eu já tive em toda a minha vida.

Eram conversas longas, densas na maioria das vezes. Em todas elas as pessoas me contavam grandes segredos. Uma colega de um trabalho antigo coleciona capas de livros. Um amigo da escola gosta de andar no meio da rua de madrugada na esperança de ser atropelado. Meu primo trai a esposa com o instrutor de pilates dela. Minha irmã… bem… enfim.

Achei que estava sonhando. Tentei dormir. Naquela vontade de, sabe, acordar de verdade. Claro que não era sonho. Fiquei deitado na cama, sem saber bem o que fazer. Resolvi levantar algumas horas depois.

Foi aí que eu vi o vulto.

Ali.

Parado.

Só dava pra ver a silhueta dele. Ali. Parado atrás da cortina da janela da sala.

Só que eu moro num sobrado. São pelo menos quatro metros do chão.

Não lembro bem o que aconteceu depois, mas sei que estava muito nervoso. Minha mãe passou por mim e, aparentemente, não estava entendendo o que eu estava fazendo no meio da sala. “Você trocou de roupa? Tinha se despedido de mim mais cedo pra ir pra aula. O que houve?” ela me perguntou.

Droga.

As próximas duas semanas foram mais bizarras do que eu pensava ser possível. Acidentes de trânsito na minha frente, assaltos no meu ônibus, elevadores que me deixavam em andares errados. Minha lista de contatos não parou de me contar cada vez mais segredos. Minha caixa de emails ficou lotada com registros das conversas que eu tinha com as pessoas na rua, na faculdade, dentro de casa. Por fim, eu comecei a ouvir os meus pensamentos de trás pra frente. Eu acho que comecei a falar de trás pra frente também, não sei.

Escrevo aqui porque acho que faz sentido.

Peguei um pouco de dinheiro na estante (desculpa, mãe) e entrei um ônibus na rodoviária. Não sabia o destino.

Por enquanto, é só. Vou tentar manter esse registro.

Que Deus me ajude.

Psiu, leitor. Você pode encontrar mais textos aqui.