Matei o dragão #PílulaRPG
Fui vitorioso em uma batalha, mas a guerra está longe de acabar.
Eu sei que você quer apenas sentar e ouvir uma boa história de heroísmo. Daquelas que fazem a gente se sentir especial apenas por ter presenciado o feito e a glória, mesmo que através de uma singela leitura.
Hoje eu não vou te contar essa história. O dragão que eu matei é apenas um dos muitos que existem por aí, aterrorizando nossas vidas.
É verdade que eles são orgulhosos. Em seu orgulho, destratam qualquer um que não seja semelhante a eles, como se todos nós tivéssemos de ser — ou parecer — com um deles. Valorizam tanto essa característica que eu quase sinto pena. Quase. É como se eles simplesmente não pudessem entender— ou aceitar — que dividem o plano da criação com outros seres.
O conhecimento popular diz que dragões não falam nosso idioma. Não se engane, a maior parte deles não está interessada em aprender. Dos poucos que tentam, apenas alguns realmente se esforçam para consegui-lo. E, mesmo assim, caso sejam bem sucedidos, sempre terão o estigma de pertencerem a uma raça que se sente superior às demais criaturas do firmamento. Mas, veja, preciso dizer que não é verdade o que falam sobre essa superioridade ser uma característica natural.
Não é.
Eles são ensinados por dragões mais velhos, infelizmente. Muitos não percebem, mas passam a seus filhotes um senso de igualdade que se restringe a algumas regras. Mesmo assim, as regras que realmente chamam atenção são aquelas não ditas. Aquelas que alimentam o mito de que todas as raças são democraticamente importantes.
Besteira.
Digo, elas são igualmente importantes, sim. Porém, da mesma forma que transparecem esse discurso, sistematizam sua prole no topo da cadeia alimentar. “Somos iguais a eles, mas somos melhores, minha criança”, desse jeito.
Seu orgulho só não é maior que seu poder. Poder de escolher quem vive e quem morre. Quem entra e quem sai. O que deve ou não existir. Dragões herdam o poder ancestral de dominação do mundo conquistado a força, e ele vem de eras primevas. Nem sempre foram tão poderosos, contudo: já souberam negociar com raças que eles consideraram menores algum acordo que, devido à astúcia, pôde ser voltado contra seu parceiro de outrora.
Sabe-se lá por qual motivo, sua sociedade deliberadamente atribuiu para si o direito de representante fiel dos planos divinos. Pelo pouco que eu consegui estudar sobre eles, os dogmas, valores e habilidades refletem um grupo que se abstém das demais criaturas vivas, relegando a elas apenas subserviência.
Você deve estar achando que eu odeio dragões, certo? Eu não os odeio. Como disse, eu quase sinto pena. Eles são vítimas do próprio modo de vida, enebriados em uma névoa de ignorância sistemática e estrutural. Talvez se eles tivessem para com a gente um pouco da mesma empatia que temos com eles… talvez a guerra não precisasse ter avançado tanto.
E, não, eu não sou idiota: nós somos mais vítimas do que eles.
Já se perguntou como deve ser acordar e viver num mundo onde você é o dragão? Digo, todos nós precisamos, em algum momento da vida, fazer o exercício de autopercepção. Autopercepção de que não somos dragões, e que, a partir disso, estamos em desvantagem, de uma forma geral.
Mato um dragão por dia, todo dia. Mas, para ser sincero com você, prefiro juntar forças para ficar com aqueles que sinto apreço. Afinal, se não for no estilo “nós por nós”, quem garante nossa sobrevivência?
Como eu disse, a guerra está longe de acabar. Vamos juntos?
Psiu, leitor. Você pode encontrar mais textos aqui.