Apolinário, o bailarino

Apolinário tinha uma vida comum. Ao menos assim fazia o crer toda vez que levantava às 7 da manhã para trabalhar no Centro. Era garçom em um bar próximo à estação de metrô da Cinelândia, e assim o fora ao longo de 40 anos da sua vida.

No auge de seus 62 anos, era um homem de recortes engraçados, mais parecendo ter saído de uma anedota de português contada em uma daquelas revistas de banca de jornal. Era um sujeito bastante mal-humorado e por este fator, tornara-se querido pelos frequentadores do bar e todos os seus colegas, o que lhe deixava ainda mais nos nervos. Não existia um bom dia para Apolinário, e de acordo com seu relógio, estava em débito com o além já há um punhado de tempo.

Acordar para ele era um tormento. Olhava a sua esposa, Mafalda, uma portuguesa com seus frequentes sonhos de grandeza, dignos da realeza joanina, que infelizmente as rendas do bar não permitiam tornar realidade. Viveram a mocidade juntos e felizes. E só. Tiveram um filho e, pelas regras morais da época, logo foram colocados em casório. O ingrato, desde pequeno lhe trouxe problemas. Era um tipo preguiçoso, bonachão, que não se interessava por trabalhos. Esparramado o dia inteiro na frente da televisão, como um gato gordo de armazém. Dado dia, por obra do acaso, meteu-se na política e teve sucesso. Como é que o fizera, Apolinário não sabia, pois nem dele, o safado ganharia voto. Entrou em um avião para Brasília e foi embora. Nunca mais deu notícias.

Olhando o único lugar que lhe proporcionava alegrias, o Teatro Municipal, Apolinário sonhava como teria sido sua vida se fizesse ballet. Apolinário sempre quis ser bailarino. Certa vez, contando o sonho ao pai, tomou uma surra que lhe colocou esfolado por 3 semanas. Sua mãe colocou-se ao lado do marido, e disse que homem que se prestava deveria ter profissões viris, que fosse aprender a ser sapateiro com o tio. Apolinário nunca entrou no Teatro. Achou que não podia, que só os artistas e os bacanas é que poderiam entrar.

O resto da vida de Apolinário se conhece, e foi até o ponto em que chegamos. Dada a entrada da hora no trabalho, Apolinário deu a última admirada no seu belo Teatro, e imaginou-se dançando Tchaikovsky. Na cena, era esguio, daqueles coroas parrudos e grisalhos, dos tipos de filmes que sempre chamam atenção, e carregava sua esposa russa, Irina (se existiu, nunca soube, mas sempre sonhou com ela). Que belo casal apaixonado e romântico. No final de tudo, era isto o que Apolinário era, um romântico. Um romântico frustrado pelos valores que sempre lhe impuseram. E neste momento de êxtase, em que finalmente encontrara a resposta para tudo, que decidira falar sobre seus mais belos sonhos para Mafalda, o “gran finale” de Apolinário. Fumante que fora toda a vida, gordo, que visto de longe mais parecia um vagão de trem, e amargurado que só, seu coração não resistiu e numa explosão de alegria, arremessou o bailarino de cara nas pedras portuguesas, tomado por um infarto fulminante. As cortinas se fecham, todos os pedestres correm para ver o bailarino Apolinário diante do Teatro Municipal. Um final apoteótico para um homem apoteótico no cotidiano. Uma salva de palmas para Apolinário.