Apreciá-la lhe trazia um gosto doce e amargo a boca. Jamais amara ninguém como fazia com ela, porém, ninguém nunca lhe trouxera tantas dores quanto ela. Trazia muito mais do que um amor simples, desses que as pessoas apenas se conhecem, gostam, trocam beijos e logo estão a encontrar a felicidade compartilhada que um relacionamento carrega. Ela, antes de tudo, lhe trouxera a felicidade. Se hoje vivia, e tirava de cada dia uma razão, grande parte disso poderia ser atribuída a ela.
Quando deitava-se, já as tantas da madrugada, fechava os olhos e imaginava uma vida sonhada ao lado dela. Em que não seriam amigos apenas, e que ela o amaria, não como um amigo. Se as pessoas soubessem o tormento que a palavra amizade carrega, jamais a tratariam como algo positivo. Neutra, talvez, mas nunca positiva. A amizade que lhes trazia a proximidade, era a mesma que o condenava a mais uma das noites sozinhas como essa. Chorava em silêncio no travesseiro, fumava um cigarro para dormir, e quando a imaginava feliz em outras companhias, por diversas vezes desejou estar morto. Mas nunca estava.
Atravessava os dias em silêncio, enxergando-se como uma simples peça a girar e girar, alguém destinado aos rumos que somente aqueles nobres de coração estão fadados a viver, incorrigíveis românticos, porém jamais retribuídos. Acreditava que se uma vez alguém passara pela Terra e levara a vida da forma mais intensa possível, este alguém fora ele. Se feliz ou não, era uma opção que decidira seguir, e que o acaso resolvera também interferir, deixando sempre um quê nostálgico em sua boca. O gosto daquilo que nunca pudera experimentar, tal como os beijos daquela que insistia em amar. E a nostalgia lhe dava o gosto na boca de nada. Ele a preenchia com fumaças de cigarro e goles de bebidas.