Dia 13

Me cansa a presunção dos que falam em dias melhores, e negligenciam as fontes de vida que secam logo em frente aos seus narizes mesquinhos, demasiadamente empinados em assuntos mais importantes.

Hoje, eu vi a morte de dez, cinquenta, cem flores — poderiam ser mil, caso minha mente não estivesse nublada — em um canteiro de obras. O barulho das pesadas máquinas abafava tudo ao redor, enquanto mais um empreendimento acendia as luzes que jamais chegariam a clarear as esquinas das ruas em que vivem as populações marginais. O pó do terreno, em complacência, cegava os olhos daqueles que já não queriam ver.

Uma criança se vestiu com uniformes limpos, pegou sua merenda e correu para a condução de seu enorme colégio, que envia ônibus para buscar os seus miúdos. Em outro canto da cidade, um menino chora por três horas pedindo dinheiro para comprar pães, que alimentarão sua família pelos próximos 7 dias. O ranho no seu nariz causa mais nojo às pessoas que passam por perto. Ironicamente, ele só sabe correr na direção delas. Suas lágrimas já escorrem desconforto, que caminham para o ódio a cada um que o ignora. Cada um deles, responsável por sua fome. Fome de comida, fome de crescer, fome de ser um deles.

Em um leito, um paciente faz suas últimas orações em preces mais desiludidas dia após dia. Seu “Messias” é, em realidade, uma mulher — mais precisamente uma enfermeira — a única que lhe visitara por 5 meses de internação. Não tem barba, cabelos compridos e olhos azuis. Mas somente ela evitou que um inferno se instalasse nestes últimos tempos. A morte lhe bate a porta, e ela não traz parentes ou flores. Ele se mostra desgostoso pelas ambições que cultivou na vida, nenhuma delas terá valor hoje. Seus dízimos repousam em algum saco largado pelo canto de uma Igreja, que nunca se converterão em alimentos para os mais necessitados, nem lhe garantirão um lugar no Céu.

Hoje eu nada fiz para amenizar as coisas. Amanhã, provavelmente, não o farei também. Minha vida é um rastro deixado por outros que passaram por aqui antes de mim.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Pedro Gabriel Torres’s story.