LEITURA EM UM PEDESTAL (APRECIAÇÃO SOBRE O AMANTE — MARGUERITE DURAS)

Por Renata Frade

Assim como nos relacionamentos amorosos, ou nas amizades (pregressas, atuais e futuras), os livros são como pessoas, objetos vivos que nos escolhem, assumem personalidades. Quantas vezes, em visitas a livrarias, nossos olhares se fixam em capas de exemplares lacrados, ou se jogam das prateleiras sobre nós, como cães em busca de adoção? Poucas foram as vezes em que me decepcionei quando os deixei guiarem minhas leituras. ´´A vida é a arte do encontro. Embora haja tanto desencontro pela vida´´, já dizia Vinicius de Moraes. A leitura de O Amante, de Marguerite Duras, foi por muito tempo desejada, mas sempre desencontrada. Agora me escolheu para fazer parte de quem eu sou.

Existem livros que nos mancham. Permanecem por dias embaralhados aos pensamentos das tarefas do cotidiano. Gritam na memória, porque acionam mecanismos internos em nosso instinto. A essência animal que clama para que transcendamos os sentidos. Não digo isto pela carga erótica e sensual presentes no clássico, que é claro que nos leva a encarar nosso mais profundo. Acabam nos colocando em vigília para que larguemos velhos trajes, máscaras, deixemos zonas de conforto e abracemos o estranho e todo o crescimento dos benefícios ou prejuízos que qualquer escolha pressupõe.

É óbvio que O Amante nos prepara para sermos melhores leitores. Recomendo, caso você se interesse (como eu) por crítica literária, que leia o pósfácio de Leyla Perrone Moysés da edição de bolso da Cosac Naify. A doutora em Língua e Literatura Francesa e livre-docente pela Universidade de São Paulo (USP), autora de livros como o Altas literaturas (que recomendo), traça com a competência usual os paralelos entre o quanto o livro é autobiográfico, o pano de fundo histórico da colonização francesa na Indochina, o quanto Marguerite Duras expõe os traumas da decadência financeira na infância e adolescência no Vietnam, a iniciação sexual aos quinze anos e meio com um rico chinês, a consciência da solidão da jovem protagonista e seu amadurecimento pelas perdas e mortes.

A narrativa de O Amante se parece a registros de um diário. Reminiscências familiares, paralelos entre a vida na França e no Vietnam, o despertar do desejo a cada encontro com o jovem herdeiro e pela companheira de quarto do pensionato. Autora, protagonista e leitores não procuram respostas; as intenções por trás de cada personagem estão às claras. Ali experimentamos motivações e compartilhamos o gozo de evoluções de pessoas, cada uma presa a seus destinos pré-traçados.

A adaptação cinematográfica homônima deste livro, por Jean-Jacques Annaud (The Lover, 1992), foi rechaçada por Marguerite Duras. É de difícil tradução a combinação de sinestesia e imagético que saltam das páginas. Como traduzir vidas em movimento, as sensações e arrebatamentos em frames que digerem e editam para nós as vivências que somente um leitor pode completar ou ampliar?

Caso tenha se interessado em saber mais sobre a escritora, com passagens marcantes no teatro e cinema, além de sua bibliografia, recomendo que acesse os links:

http://www.theparisreview.org/blog/2015/04/27/on-a-pedestal/

http://www.imdb.com/name/nm0243921/

https://www.goodreads.com/author/show/163.Marguerite_Duras

Uma dica que deixo a você em 2016 e para a vida: dê uma chance aos livros que se jogam ao acaso! Acaso?

Publicado em https://pessoafisica.wordpress.com