Essa menininha

“Innocence”, Shiori Matsumoto.

Faz tempo eu quero matar essa menininha.

Mas, por mais que não a veja morta,

o cheiro de putrefação

sobe ao meu olfato.

A menininha já deve estar morta.

Ou não está?

Aqui tem mais versos dela do que meus.

Dentro do meu peito enterraram seu caixão.

Essa menininha.

Aquela menininha.

Ela não me viu chegar,

não me notou aqui.

Quero despojá-la junto

aos outros cadáveres.

Quero gritá-la para fora dos

meus olhos.

Essa menininha tem gosto de felicidade e sonolência.

Mas o sono que vem dela

não é esse que agora me apossa, esse sono químico.

Em uma coisa somos parecidas: não sabemos

pra onde andamos.

Só que ela não se preocupa com isso.

Não se preocupava.

Ela morreu.

Ainda vejo sua sombra na noite,

no vento escuro,

no cheiro de maresia

ou no ar saturado da cidade.

Vejo-a pairando sobre minha pele ferida.

Costurada nas minhas linhas,

desfiada nas minhas bainhas curtas.

O seu espectro

é qualquer coisa

que não sou eu.

Quero matar essa menininha.

Eu quero matar.