estou cansada de procurar significados ocultos em tudo que as pessoas dizem ou fazem

“Scratches”, Sunhorde.

andei fotografando as minhas feridas

pra começar a conhecer a natureza delas

andei com meus próprios pés

caí com meus próprios pulsos no chão

e li as palavras refletidas ali

as letrinhas que alguém cuspiu ali

dali eu olhei pra cima

ali eu fiquei

caída no chão

as pernas rasgadas pelos cacos das letras

ali eu ouvi a dor das pessoas

misturada com a minha

e o sangue das minhas feridas

era a dor

deles

no pulso, o tecido lacerado de cima a baixo

no meio, uma crosta alaranjada

uma depressão irregular,

cheia de curvas que lembram as de um lago

nas minhas pernas, há de todos os tipo

bolinhas, triângulos, elipses

há a que parece um passarinho

uma minúscula pocinha de sangue

não usei objeto algum para abri-las

apenas as palavras deles

e, também, é claro, seu silêncio

e quando vão cicatrizando…

ao contrário das manchinhas marrons de sol e velhice

essas não saem com tratamentos dermatológicos

são brancas, em alto-relevo, suicidas

e vão ficar pra sempre