Despedidas

Tem sempre aquele ponto de parada. Aquela situação com aquela pessoa em que as coisas simplesmente não são tão claras naquele momento que já nem sei exatamente qual foi. Teve mesmo um ponto? Ou foi sendo assim, um dia depois do outro, uma lenta infiltração até uma ruptura, até cada um ter ido parar tão longe que só o que se lembra é aquele longínquo momento do ontem, do ano passado, de cinco anos atrás.

E aí vai tudo passando, a vida vai caminhando para todos os lados e é um tal de levanta, toma café, onde está aquele papel do exame que eu tinha para fazer, meu deus, tô atrasado! E vai, vai indo o tempo. Mas aquilo está lá, escondindo por baixo de milhares de células das emoções, soterrado num desvio de tantos ocasos, só que ao mesmo tempo tão premente que é irresistível olhar aquela foto. Ou pior, é impossível não falar com qualquer alguém sem estar no será que já fiz isso antes ou no nossa, como eu queria falar isso para você.

E o grande jogo das culpas e das dúvidas, quando iniciado não para. E não perdoa. Não liberta. Fiz isso porque ela também, mas ele foi e falou, enquanto estava todo mundo fazendo aquilo, mas será que foi isso mesmo que eu tô me lembrando? E nesse campo das memórias só caminham as abstrações, as coisas que já nem existem no mundo das coisas porque vão assim soterradas de memórias próprias, de recalques e várias dores de cada um. Só que misturar dores e rancores é ressaca certa.

E de todas as horas e todas as comemorações se arrasta um cordão finíssimo até o outro, que vai sendo observado. Uma isca. Se você puxar, eu conto, volto e falo tudo. Divido com você tudo o que não tivemos e prometo não falar daquele dia em que a gente não se encontrou naquela conversa. Sim, aquele silêncio, juro que não falo. Mas não dá, esse silêncio é nossa amálgama que não permite que nem por um segundo eu esqueça de você, mesmo sem eu querer.

Eu juro, juro mesmo que vai ser tudo diferente, até porque tudo já é mesmo. Até porque já sei e já vi que você é outra e fala umas coisas que eu nem sei de quem seria, mesmo que eu nem lembre mais o seu aniversário ou do que eu gostava de falar com você. Prometo que todo aquele rancor vai embora, mesmo sabendo e tendo certeza de quanto você está errada.

E por tudo isso, por todas essas grandes contradições é que essa despedida é sem fim, a despedida que procura encontrar. É como olhar aquela pessoa que estudou com você na escola ou um primo que a gente nem lembra o nome, mas lembra que teve uma tarde muito boa, uma coisa assim que esquenta o coração, mas não lembra o porquê. É sem chance, sem volta e sem sentido. E por isso é que não posso mais querer esse reencontro, essa chance. Não temos para onde voltar.

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