
Como Caetano mostrou o pensamento masculino em uma poesia ofensiva
Talvez problematizar os versos de um do músicos mais aclamados no Brasil incomode os amantes de MPB, mas a inquietação que senti ouvindo essa música repetidamente talvez também afete as mulheres que se sentem como eu: cansada e ofendida. Em uma sociedade patriarcal, o que resta à mulher é um cenário de submissão, imposições, dor, inferioridade e dependência. Isso se dá por conta de um sistema de hierarquia de castas*, composto por homens e mulheres, opressor e oprimido, e perpetuado pela socialização e instituições. Escola, família, igreja, sem mencionar arte, cultura e — principalmente — política garantem que os conceitos de gênero, representados pela feminilidade e masculinidade, sejam reproduzidos constantemente. Assim, o patriarcado se mantém inabalável e as relações de poder continuam intactas: homens no topo, mulheres abaixo.
Você já deve ter percebido, ou ao menos se perguntado, de onde vem toda essa exploração. Ou seria ela intrínseca? Seriam todas as mulheres submissas por natureza e todos os homens cruéis por nascença? Não.
Essa opressão tem uma origem e não precisamos ir tão longe para conhecê-la, basta fazer como o patriarcado nos ensinou e olhar para baixo. Nossa vagina carrega um significado histórico, social e político, um significado importante para o sistema. Nascer com uma vagina implica num tratamento inferior, de subestimação e desdenho. Isso pode ser resumido em uma única palavra que sucinta a raiz da misoginia: socialização.
Nela, a mulher é criada para ser insegura, educada, emotiva, bonita, delicada, dócil, feminina, maternal, amorosa e compreensível, enquanto o homem é projetado para ser assertivo, viril, confiante, forte, egoísta, emocionalmente distante e visionário.
Como se não bastassem todas as consequências causadas pela socialização, usurpar nossos direitos, tomar nosso espaço e nos escravizar emocional, física e financeiramente ainda não pareceu bastante. Além de nos dominar, o patriarcado — e suas crias — se posiciona de uma forma bem debochada quanto aos dilemas e desdobramentos de ser mulher. Mas para que essa crítica faça sentido, é preciso que você conheça a letra da música “Homem”, de Caetano Veloso:
“Não tenho inveja da maternidade
Nem da lactação
Não tenho inveja da adiposidade
Nem da menstruação
Só tenho inveja da longevidade
E dos orgasmos múltiplos
E dos orgasmos múltiplos
Eu sou homem
Pele solta sobre o músculo
Eu sou homem
Pêlo grosso no nariz
Não tenho inveja da sagacidade
Nem da intuição
Não tenho inveja da fidelidade
Nem da dissimulação
Só tenho inveja da longevidade
E dos orgasmos múltiplos
E dos orgasmos múltiplos
Eu sou homem
Pele solta sobre o músculo
Eu sou homem
Pêlo grosso no nariz”
Que vocês não tem inveja da maternidade, tampouco da lactação, não é novidade. Vocês odeiam a maternidade e amam a reprodução. Enxergar a mulher como uma incubadora humana e um ser nato por natureza para se doar integralmente à cria é apenas um exemplo que posso usar para sustentar esse argumento. Quem quer um bico rachado enquanto alguém suga seu leite misturado com sangue? Eu não gostaria. Mas se você me perguntasse há 10 anos, talvez eu respondesse que sim.
A adiposidade também nunca foi algo que nos encantou, aliás, posso garantir que quanto maior sua quantidade, maior o sofrimento. Com a ajuda da mídia mais a indústria da moda e farmacêutica, vocês nos ensinaram a sentir repulsa por qualquer excesso de gordura no nosso corpo. Então, obrigada pelos dedos na garganta, dias de jejum, perfume nas ponta dos dedos e algodão no estômago, nós também não invejamos a adiposidade. Particularmente, a menstruação também não me agrada. Eu sinto muita dor, mas isso não vem ao caso. Não vem porque até a mulher mais orgulhosa da sua menstruação já se sentiu suja e humilhada por ela, desde as risadas na aula de educação física ou da preocupação em esconder o absorvente na saída da farmácia. Obrigada por isso também.
A longevidade realmente chama a atenção, mas infelizmente não podemos contar com isso. Não podemos porquê, por mais que as mulheres se preocupem mais com a saúde do que os homens, por mais que façam todos os seus exames anualmente, ela não existe. E não existe pois nada me garante que não serei mais uma vítima do feminicídio, da violência sexual, dos abusos físicos e psicológicos. E, bom, de que nos adianta esse valiosíssimo benefício da longevidade se vocês não param de nos matar? Mais uma vez, obrigada por isso também. Se eu pudesse fazer uma música com todos os privilégios masculinos que invejo, pode ter certeza que triplicariam esses versos.
Apesar de tudo, não acredito que isso seja estritamente culpa de Caetano, Bukowski, Vinicius de Moraes ou qualquer outro. O patriarcado tem esse poder de doutrinar e treinar suas crias para aperfeiçoar seus mecanismos de manutenção e perpetuar o sistema, isso é certeiro. Mas não significa que devemos passar a mão na cabeça de um homem adulto, com acesso à informação — e que ainda alega se juntar às causas de esquerda — cantarolar vinte linhas de puro deboche e ofensa, para não ir muito longe. Porque eu não sei vocês, mas é exatamente assim que me sinto: ofendida.
Em nenhum momento me perguntaram se eu gostava de orelhas perfuradas ainda recém-nascida, usar rosa, vestidos, batom, sutiã aos doze anos, arrancar pêlos aos dez, submissão, flores, serviço doméstico, homens, filhos, gravidez, tripla jornada, apanhar, ser estuprada por vinte e oito caras.
Quem gostaria de ser como nós? Quem desejaria viver uma vida destinada ao sofrimento? Quem, em sã consciência, quer pertencer à subclasse, o segundo sexo? Eu não optaria pela estrada da exploração se tivesse essa opção de escolha.
Mas nossa vivência também não é só angústia e tormento, afinal já diria Caetano: “longevidade e orgasmos múltiplos”. Cancelem os atos contra estupro, a militância pelo fim da exploração feminina, a luta pela emancipação e por direitos que prolonguem alguns anos da nossa (re)existência. Nós temos a longevidade e os orgasmos múltiplos. Isso não lhe parece o bastante?
*Algumas teóricas preferem usar o termo casta ao invés de classe, visto que na classe existe a possibilidade de mobilidade e ascensão individual, e na casta não, assim como na nossa condição de ser mulher.
NOTA: Aproveito o espaço para divulgar o trabalho fodástico de uma cantora chamada Alice Caymmi, que cantou uma versão sensacional da música “Homem”. Você pode conferir nesse link: https://www.youtube.com/watch?v=iXZjbhAEuEk
Consegui sentir a ironia e crítica daqui. Obrigada por isso, se foi sua intenção.
