Número 1

A tarde começa comigo de calcinha e sutiã, me sentindo um pouco inchada e com o pé preto — há pouco tocava a playlist cREEP que consiste basicamente em “Johnny Cash — Hurt” intercalada com The Smiths e Radiohead entre outros sons de não-pertencimento. Estou chorando baixinho segurando uma bola de plástico em formato de melancia e tentando pôr em ordem algumas umas roupas. Sabe quando você acha que se bonificar com um Oreo pode te fazer minimamente satisfeito e te convencer de que seu esforço valeu a pena? Pois é, mais ou menos assim, mas o Oreo acaba tendo muita açúcar e gordura hidrogenada para um corpo que já está frágil e a situação piora, o sugar rush só faz suscitar novos sentimentos de agonia, e começa a tocar Fake Plastic Trees.

Essa noite eu tive um sonho esquisito. Logo depois de transar com um cara aleatório, enfiei a mão em minha vagina e tirei uma coisa macia de lá. Olhando pela segunda vez, vi que aquilo era um feto. Um não, na verdade gêmeos. Todo o conflito que se seguiu no sonho não era a gravidez, ou meu aborto espontâneo bizarro. O que me atordoava era a vontade de enterrar o tal feto, pois eu queria, por algum motivo místico, devolvê-lo à terra. O problema era que onde quer que eu o colocasse, minha mãe encontraria de alguma forma. Isso não podia acontecer.

Lembro-me de uma vez na minha infância ter feito xixi numa embalagem dessas de Kinder Ovo e esconder num buraco da parede do meu quarto junto com amuletos mundanos, tipo um pedaço de vela e pedrinhas arredondadas. Não faz muito tempo que eu descobri que sempre precisei esconder coisas de minha mãe. Desde pequena me pareceu um desafio à neurose obsessiva dela. Há bem menos tempo que a primeira memória, fiz um piercing microdermal no esterno. Na mesma explosão de impulsividade em que coloquei o brinco, resolvi tirar num dos dias em que meus pais estavam se separando. Talvez eu só goste mesmo de sentir dor. Na verdade é um pouco mais que isso, mas não vem ao caso.

O que agora está claro em minha cabeça demorou um tempo de auto análise. O inconsciente apronta todas. Eu fiz o piercing, consegui escondê-lo de minha mãe pelo tempo que durou e numa onda precipitada tirei, porque na verdade eu nunca fiz muita questão dele esteticamente. A retirada da peça foi massa. Eu fiz toda uma assepsia, esterilizei a instrumentação utilizada, tudo profissional. Se tem uma coisa que eu gosto é de levar a sério esse tipo de tarefa e me gabar pelo sangue frio.

Conviver com minha mãe é quase como se todo dia, ao passar pela porta da frente, eu cruzasse um detector de metais, ou fizesse um raio x da minha bolsa. Ela sabe tudo que entra, tudo que sai. Ela tem controle, ciência de todo objeto que tem dentro dos 180 metros quadrados de casa. Me pego pensando em maneiras absurdas de esconder um isqueiro. Minha neurose me faz pensar com cuidado antes de jogar a ponta de um baseado na privada, pois ela pode entupir e ele vir à tona. Sempre rasgo bem a bula da pílula do dia seguinte, pra ficar ilegível. Em certas ocasiões eu inclusive prefiro jogar meu lixo na rua mesmo.

Ao mesmo tempo em que ela é esse inventário ambulante, existe uma distância entre nós e eu sinto por isso. Parece haver um desequilíbrio entre o que eu quero e o que ela consegue acessar — minha intimidade é exposta na sua superficialidade — mas quando é preciso ir longe perdemos o sinal.

Quando fiz sexo com meu primeiro namorado, marquei ginecologista, e quando a médica perguntou seu eu já havia tido relações sexuais respondi que sim, foi assim que minha mãe ficou sabendo. Pra ser bem sincera eu nem me lembro muito bem da sucessão dos fatos, o que ela disse, se fez um ou dois comentários blasé. Era como se ela estivesse meio sem lugar comigo. E sempre parece desconfortável perto de mim. Eu não era mais virgem, segue o jogo.

Mais cedo enquanto eu ouvia minha lista de auto flagelação, sofria com diversas decisões que precisava de tomar e com compromissos inadiáveis que eu desejei que fossem possíveis sublimar. Algumas dessas dúvidas sequer eram genuinamente minhas. Ao longo dos anos eu desenvolvi a dificuldade de diferenciar os meus quereres dos de meus pais. Complicado. Acho que todos passamos por isso, mas poucos somos conscientes dessa reprodução cotidiana.

Meu primeiro compromisso do dia de hoje foi ir à dermatologista. Além de uma dermatite na nádega esquerda, estou com cicatrizes na testa depois de uma queda no carnaval — fato também devidamente maquiado e modificado do alcance de minha mãe. Acho também que estou com candidíase, mas isso já é outra especialidade médica.