Vagina Panic

Ter uma vagina é um negócio muito trabalhoso, talvez esse seja um dos motivos pelos quais este blog existe (o outro sendo puramente a necessidade de oversharing na internet). Lá no primeiro episódio da série Girls da HBO já nos deparamos com os inúmeros ônus que as mulheres tem por ter um aparelho reprodutor feminino. Disfuncional ou não, sempre teremos empecilhos, cheiros, mucos esquisitos e dúvidas. Como é que a natureza faz um sistema tão difícil de hackear assim?

No começo desse ano, meus pais se separaram de uma maneira um tanto quanto abrupta. Sem pincelar muitos detalhes, fato foi que ele abriu o jogo com minha mãe dizendo que tinha interesse em outra mulher. Isso pra ela foi o suficiente para expulsá-lo de casa, e sem ter pra onde ir, ele acabou passando uns 4 dias na casa d’aoutra. Alguns capitulos melodramáticos depois, ele e minha mãe voltam tal qual um casal adolescente, como se nada tivesse ocorrido, até que um belo dia chega o senhor meu pai com um saco de camisinhas de posto de saúde — “a gente tem que transar sempre protegido porque senão passa por uma coisa dessas” — empunhando um papelzinho de resultado de exame de HIV e DSTs.

Fiquei meio assustada, mas achei ao mesmo tempo cômico — o cara que mais martela na sua cabeça sobre proteção e a baboseira machista de sempre fazendo exame rápido do SUS. Também fabulei que ele deve ter transado uma única vez com a moça e já foi hipocondríaco o suficiente pra surtar achando que tinha pego AIDS. Quando se está num relacionamento monogâmico de longa data qualquer tropeço é uma queda grande. Nós jovens somos tão mais (perigosamente) relaxados com isso.

Imagino os homens que conheço, a vida inteira com um pau dependurado ali no meio das pernas sem refletir sobre, apenas lembram-se dele quando o encostam na pia gelada. Eu nunca tive nenhuma DST, apesar de na mínima alteração da mucosa já estar pesquisando sobre sintomas de HPV na internet. Já faz quase um ano que, numa guinada natureba de autoconhecimento, parei de usar hormônios contraceptivos — método cujo qual meu corpo nunca aceitou inteiramente. Em pouco mais de seis anos de vida sexual e contracepção hormonal, eu usei umas sete combinações diferentes. Desde então, tenho vivido num eterno estado de alerta. Obviamente, a abstinência da estrogênio e progesterona fez meu corpo reagir de maneira desregulada, tendo ciclos longos, pouco sangramento e alterações diversas. Perdi a conta das vezes que achei que estava grávida pelo simples fato de estar meio inchada (provavelmente por não ter feito cocô há 3 dias).

Fiz cerimônia pra lua cheia, tomei vários chás, usei óleo essencial, tentei meditar visualizando uma luz laranja pra liberar meu chakra sexual. Fato é que, independentemente de eu querer esperar que meu corpo volte ao “normal”, é prudente que eu volte ao ginecologista pois já tem quase um ano desde a última vez. Toda menina sabe que é prudente ir ao ginecologista periodicamente para ele apalpar seus seios, enfiar coisas na sua vagina e prevenir coisas.

Vocês também tem um pânico irracional de ir ao ginecologista? Que introduzam o capitão gancho em mim, eu não ligo. Mas é que sempre que há uma consulta marcada me vêm pensamentos intrusivos do tipo ‘“vou descobrir que tenho uma DST rara” ou pior, ele vai me revelar que estou grávida de muitas semanas e não vou poder abortar. Eu vou ser aqueles enigmas da medicina do Discovery “Eu Não Sabia que Estava Grávida”. Isso tudo baseando-me na minha vida sexual paradésima e meu sexo sempre protegido com camisinha.

Ainda nessa busca holística, fui numa sessão de acupuntura marcada pelo plano de saúde, e a médica resolveu me pedir uma bateria de exames. Já que o plano paga, vamos fazer tudo, né? Hepatite, Sífilis, HIV e intolerância à lactose. Novamente os pensamentos chegam metendo o louco: o dia que eu receber o resultado desses exames eu vou passar mal antes de abrir o papel. Se meu pai, aos 48 e casado tentando voltar com a esposa sobreviveu, eu sobrevivo também. Ontem vi de novo o cara com pedido de exame, dessa vez HPV. Pô pai, será que não testou tudo de uma vez?

Me sinto levemente mais humana, mas nem um pouco menos preocupada.