Desculpar não resolve

— Você está mais distante do que o normal esses últimos dias, o que houve?

— Nada, só quero meu espaço

— Você não dorme comigo tem alguns dias! Você não precisa de mais espaço do que isso!

— Beatriz, hoje não, por favor…

— O quê? Você gosta mais desse seu computador e seus joguinhos do que mim?

— Não tinha pergunta mais estúpida na sua cabeça ou essa foi o máximo que conseguiu pensar?

— Por que me ofender? Eu ofendo você e seu humor ruim? Eu ofendo quando você é grosso? Parece que eu só sirvo pra arrumar a bagunça que você faz!

— Bagunça? A cozinha está impecável, eu troquei o lençol hoje e fiz mais um bando de coisa na casa

— Não Brilhante, a bagunça que você faz por não saber responder alguém igual gente

Aquilo tinha machucado, ela sabia e não precisei mostrar muito pra ela saber disso. Você não diz isso pra um sociopata, não deve dizer isso em hipótese alguma!

— Desculpa -colocando as mãos perto da boca- eu juro que foi sem querer


— Bri, desculpa, eu juro que não foi por querer

— Vou na padaria comprar cigarro, quer alguma coisa?

— Quero que você me desculpe serve isso?

— E eu quero comer sua bunda desde nosso aniversário de quatro anos, nem por isso você me vê com cara de cachorro enchendo seu saco

— Ah então eu só encho seu saco?

— Beatriz, sério… Quer algo da padaria ou não?

— Quero que você durma na sala hoje e fique satisfeito

— Vou e volto

No caminho de volta da padaria veio um marginal desses de rua já mostrando uma faca e sabia que ali tinha começado o assalto. Já fui levantando as mãos e não mostrando resistência, ele falou umas coisas sem sentido e aproximando a faca cada vez mais perto do meu pescoço. Só consegui entender uma frase que foi dita ali

— PASSA A GRANA SEU BOSTINHA SE NÃO EU TE CORTO TODO!

Falei que não tinha dinheiro algum, que só tinha ido comprar cigarro e até sem celular estava. Tomei um soco no olho e num movimento rápido ele conseguiu passar a faca na minha mão abrindo um corte. Por sorte tinha uma viatura de polícia perto que ligou a sirene e o assaltante saiu correndo assustando

— O senhor está bem? -perguntou um dos policiais enquanto o outro parecia correr atrás no marginal- algum ferimento grave?

— Não não, estou bem só acho -passando a mão cortada com sangue no rosto sem saber que tinha sangue encharcando minha barba- é eu me cortei, mas não foi nada sério, em casa vejo isso

— O senhor está ferido e precisa de cuidados médicos agora. Podemos ir pro hospital na viatura, onde o senhor mora?

— Tá tudo bem, mesmo. É só sangue e isso sai com água e moro ali na esquina

— Temos ataduras na viatura, o senhor tem certeza que não quer ir para o hospital?

— Absoluta


— O que houve no seu ro… O QUE HOUVE COM SUA MÃO? VOCÊ ESTÁ SANGRANDO MESMO!

— Sério que eu tô sangrando Beatriz? Achei que eu estivesse menstruando pela mão, que agora tinha virado mocinha e tudo mais. Sabe como é né? Você passou por isso?

— Vamos lavar esse ferimento agora vem aq…

— Não preciso de ajuda -interrompendo Beatriz- pode deixar que eu sei primeiros socorros e foi só um corte

Na verdade não tinha sido só um corte, não tinha sido profundo o suficiente pra levar pontos, mas não tinha sido só um corte.

— Bia, pega sal e limão por favor

— Você precisa de um médico

— Custa pegar a porra so sal ou eu terei que ir lá? Já estou com a mão aqui embaixo d’água e extremamente desconfortável, custa ser útil uma vez no dia?

— Pegue você o sal, tomara que essa mão caia


No dia seguinte acordei com a bandagem um pouco suja de sangue e com a mão bem dolorida, ainda bem que era a esquerda e que não influenciaria no trabalho. Beatriz não parecia estar em casa, o que é bem incomum para um sábado de manhã. E também não atendia o telefone, muito incomum isso. Havia um bilhete na geladeira escrito

“Fui caminhar na praia e estou sem celular. Tem café pronto e fiz um sanduíche pra você”

Beatriz não gostava de caminhar, mas bem, pelo menos deixou café da manhã pronto.


— Onde você estava Beatriz? Passou o dia inteiro fora e ninguém tinha notícias de você! Liguei pra Clara, Cátia, Julinha… Onde diabos você estava?

— Só quero ir pra cama e dormir, amanhã conversamos

— Claro que só quer dormir, são quase dez da noite! O que aconteceu? Onde você foi?

— Não quero falar sobre meu dia tá?

— Cacete, eu sou seu noivo, custa falar comigo? Custa pelo menos uma satisfação?

— Eu pensei em trair você hoje tá? É isso que quer ouvir? Eu pensei, mas pensei com vontade e não sei o por que não fiz. Clara mentiu, eu estava na casa dela. Conversamos muito sobre isso de casamento e não sei se quero mais casar…

— Quer sentar e conversar sobre isso? Beatriz… Você passou o dia inteiro fora e agora vem com uma notícia assim? É muita coisa pra minha cabeça

— O sofá é seu, e troque de curativo porque está sangrando ainda. Você precisa ir no médico ver essa ferida

— Você bebeu? Você passou o dia inteiro sem dar sinal de vida, não levou o telefone e aidna volta bêbada pra casa Beatriz?

— Eu tolero seu humor todos os dias e sim bebi uma cerveja agora de noite. Vai ficar me controlando agora?

— Você ainda vai destruir nosso noivado Beatriz…

— Você fez isso primeiro Bernardo, só não viu