
O Guiomar me odeia
O cara vai, faz um filho homem, gordo, com uma cara de borracheiro. Chama de Guiomar. Tu quer que ele dirija um caminhão, tu quer que ele seja baderneiro. Tu espera netos bastardos no interior do Maranhão, e mal se aguenta imaginando o dia que ele vai te contar — a camisa aberta, o peito peludo, a corrente de ouro com o São Jorge corroído do suor venenoso que tem esse safado malemolente — como foi que ele conseguiu aquela cicatriz
asquerosa na boca.
Meus meninos maus, machos desde sempre. “Por que, pai?”. Porque sim e deu. E vá sova. Quanta sova pra curtir o couro de cada moleque da minha leva de três. Ensiná-los a ser homem. O Guiomar é homem. O Guiomar me odeia.
A cicatriz na boca foi de uma briga com um namoradinho, que tirou pedaço numa mordida. Mas desde o começo falava que não. Era brinquedo. Folia de molecada. Meia. Quem termina antes. Guerra de cosquinha.
A corrente de ouro ganhou dum rapaz da mecânica. É pra proteger na estrada. É mimo pra que sempre regule ali a camioneta. Isso foi por uma aposta na sinuca.
Os óculos quem lhe deu foi o Cica. É que tinha quebrado os meus. Sabe o que foi? Me devia uma grana. Isso faz já muito, nem lembro.
Surrei quase toda vez que apareceu um presente. A última vez tinha já seus dezesseis. Depois, nunca mais, que ia me dar de volta. Diz que tentou, diz que não importa tentar. Tem um filho, de tanto tentar, mas nunca sentiu. E não sente. O Guiomar me odeia, meu neto me odeia. A mãe eu nunca vi. O menino só uma vez, e de longinho assim.
Meus meninos eram três. Um bem macho, come sempre e farto. Quantas por dia. Tem já quarenta, mas é moço. Dou sempre o carro quando vem. Escorrego uma onça pra ele sempre que sobra. Nunca sobra, mas sempre tem.
O outro morreu já tem dez anos e mais. Era o mais novo e morreu rapaz. Nadava sempre e bem, ficou na barragem e teve quem dissesse que foi por gosto. Eu não acredito.
Logo o do meio me foi sair atravessado. Mas me visita.
Dessa vez veio ele mais o motorista da firma. A gente assa qualquer carne e fica fervendo numa sombra mormacenta.
Me perdoou as surras. Me alcançou uma cerveja. Veio com o motorista. Fervendo no mormaço. Faz tempo que mora longe, por isso veio com o motorista. Botou a mão na perna. O Guiomar me odeia. Não quer me mostrar o neto. O São Jorge corroído. O Guiomar me odeia. O medo da estrada. O interior do Maranhão. O Guiomar me odeia.
(2013)