
Random, a ficção II
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Random é um exercício de escrita.
Sorteio uma ou uma série de palavras usando um aleatorizador. Para escrever uso um aplicativo que, caso não se escreva nada em cinco segundos, apaga tudo o que foi escrito até então. Faço sessões de cinco minutos de escrita ininterrupta, aumento, finalizo e edito o texto, e o publico.
aplicativo de escrita: http://www.themostdangerouswritingapp.com/
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Palavras: grin, gunplay, pelvic, mental, barge
O capitão tem um problema na pélvis. Manca desde que se enredou na linha enquanto pescavam um atum dos grandes. Foi um horror, sangue pra todo lado, uma cicatriz impressionante que sobe pela nádega, pelo lado de dentro. O bicho lhe cortou fundo na virilha. A corda lhe cortou, na verdade. E, se a gente for pensar, quem se cortou mesmo foi ele, que quis estar ali lutando com atuns até a morte. No dia que aconteceu foi horrível, quase perdeu a vida e, depois, a perna. Mas hoje entende da luta, conta tudo com um sorriso largo, tem respeito por aquele Atum, considera-o igual.
Com o mesmo sorriso de dentes caninos pegou a arma da gaveta. Estávamos os dois sentados na cozinha do barco. Cozinha que é modo de dizer, mesmo, que nesse que estamos é tudo uma coisa só: cozinha, duas beliches coladas ao teto — duas vezes me levantei e grudei a testa no forro, já tenho uma mancha bem em cima de onde durmo. Também tem um banheiro perto, mas é por puro design, acho. Cagamos e mijamos no mar e, eu juro, tem gente que coloca água doce na caixa de dar descarga. E era justamente disso que ríamos. Do dia que, ele me contou, se salvou de uma deriva por lembrar que tem gente que coloca água doce no tanque do vaso sanitário e, voilà. Dez litros de água doce um pouco oleosa, com gosto de limo.
Era disso que falávamos e puxou um revólver. Usava seu sorriso enorme de dentes miúdos quando puxou o cão pra trás e deixou o revólver em cima da mesa da cozinha. Estávamos sentados um de frente pro outro, afiando e desentortando anzóis.
Na hora me lembrei e entendi o porquê das cabeçadas no teto. Quando acordo e só enxergo o forro branco na minha frente, penso que estou cego. Meus pensamentos demoram a recapitular o barco, os peixes, a féria que me espera quando atracarmos. A esperada medição de gordura na cauda e o preço que vai sair da boca do avaliador. Sonhava com quando ele diria “9 mil dólares”. Um bom atum gordo vale um belo dinheiro. O sonho foi se adaptando conforme ficávamos no barco e as iscas não eram mordidas. E comecei a sonhar com aquelas nuvens muito perto, com aqueles peixes que escapavam. Acordava olhando pro teto e o forro branco dessa resina flutuante da qual é feita boa parte dos barcos parecia a gordura branca e saborosa que a gente espera encontrar na cauda dos atuns quando o avaliador tira a sua prova: “3 mil dólares”. Eu regateava com meus sonhos, já tinha uma nuvem de sangue sobre a minha cabeça e nenhum peixe no gelo.
No dia que acordei na metade do tempo de sono que me cabia, no turno que ele devia vigiar as linhas, caminhei com cautela até a frente do barco. Queria mijar, ver o tempo, medir as ondas e voltar, sem ser visto para não perder a boa fatia de sono que ainda me cabia. Vi-o nu e descalço no convés, cortando as cordas das quantas varas de pesca. Não me viu. Cambaleava na luz muito pouca e muito amarela do convés, estávamos sem nuvem e o barco mexia muito. No meu turno seguinte disse que todas tinham quebrado. Comentou que estávamos ficando sem material de pesca, o que é algo inesperado de se ouvir de um capitão de um barco de pesca. Fazia pouco que tínhamos saído para alto-mar, estávamos longe, mas sempre se espera que um homem com tanto tempo de mar saiba se arrumar antes de ir à caça.
Era como chamava, na verdade. Caça. Caçava atuns, via mais verdade nisso. Eu não conseguia discordar. Nos outros barcos que trabalhei, em traineiras, o trabalho era parecido com a agricultura. Íamos à colheita dos frutos do mar, e o barco era um trator dos automáticos, uma colheitadeira. Nosso trabalho era muito, mas não era uma batalha. Arrastávamos as redes, subíamos as redes. Pegávamos os frutos. Alguns necessitavam manuseio antes de serem jogados no gelo. Tem peixes que se precisa quebrar de um tal jeito. Mas a grande parte ia bem viva, morrer de frio e de sufocamento nas masmorras do barco. Eu nunca tive pena, via os peixes como umas frutas com olhos, e mesmo os olhos são bons de comer, eu gosto.
Mas os grandes, era diferente. O marlin era diferente, porque vinha armado de espada, e sobram histórias de peixes que pularam no convés e atravessavam macacão de corda, costelas, pulmões, e o resto, até sair do outro lado. Tudo. O atum era diferente, que aparentemente não tinha o que fazer, e fazia. O atum era o homem, sem dentes, lutando a puñetazos. Mesmo sem espada na cara, fazia, e quase levou uma perna do capitão com um jeito de corpo que deu naquela batalha.
O capitão tratava todos por “Atum”. Marlins eram muitos, mas os atuns viraram um único na sua história. Ainda que um imediato tivesse se certificado de enfiar uma faca na cabeça do peixe, enquanto outro acudia o capitão — tempo de mais homens no convés, eram três — ainda assim, o peixe escorregara, morto e com a faca atravessando o olho, pro mar. E agora toda corda era uma armadilha, qualquer atum era aquele. E agora o Atum tinha uma faca, virara um marlin. E agora esse revólver.
