Random, a ficção I
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Random é um exercício de escrita.
Sorteio uma ou uma série de palavras usando um aleatorizador. Para escrever uso um aplicativo que, caso não se escreva nada em cinco segundos, apaga tudo o que foi escrito até então. Faço sessões de cinco minutos de escrita ininterrupta, aumento, finalizo e edito o texto, e o publico.
aplicativo de escrita: http://www.themostdangerouswritingapp.com/
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Palavra: hotter

Me jogou o ferro de passar roupas. Não havia brasa ou fumaça ao redor, então peguei o objeto sem pensar. Não pensei nada disso antes, na verdade. Apenas peguei. Pensei o que pensaria só depois, na hora a gente ataca, é o jeito.
Estava morno, é verdade. Não era o frio do metal dormindo, que é um frio bem característico, mordente. Era uma temperatura amena. Morninho. Então não larguei o ferro. Me certifiquei que estava desligado, o rabicho de plugar pendendo, não há perigo. Seguimos conversando. Fazia calor. Não me preocupei em colocá-lo sobre a tábua de passar, tinha palavras quentes na boca que precisava cuspir. Da Carla. Que a vira no dia do bloco. Que me comentou dele, que me comentou dos planos, que voltara pra casa dos pais. Do horror da volta ao ninho. Que agora fazia aulas de francês, quem diria.
Ele me ouvia, já vestia a camisa impecável, agora ajeita uma das empunhaduras. Está com essa mania de usar abotoaduras, mas umas que comprou da internet, são horríveis. Mas sempre me olha enquanto falo, enquanto se arruma. Com a certeza imediata de que algo está errado, olho pras minhas mãos, que estão em carne viva. Engraçado, a reação não foi de soltar imediatamente, gritar, o choro. Não, o que fiz foi calmamente girar o dimmer do aparelho; me certifiquei de arrancar as peles que estavam mais moles e furei duas bolhas na mão direita, que espirraram água. Esta teve mais contato com o ferro; gesticulo com a esquerda.
Me peguei pensando se não sentira porque a brasa elétrica foi me queimando aos poucos, cozinhou os nervos e o sentido da mão e não tive alarme do corpo, ou se era coisa de antes. Vai ver tenho uma doença que não se sente as mãos, isso vai dar um trabalho danado pra escovar os dentes. Imagina pra digitar no trabalho, como vai ser. Enquanto me preocupo disso, ele segue apertando a gravata ao redor do pescoço. Já passou do ponto de ajeitá-la na calha da camisa: já está com os lábios roxos, os dentes começaram a cair, mas ainda tem os olhos de filho da puta grudados em mim. Sigo falando das aulas de línguas que a outra está fazendo, mas agora estou pensando: como farei pra amarrar os sapatos? Será que me acomodam em outra função no escritório? Com umas mãos fortes assim para o quente não fará falta paninho pra segurar o bule de café pelando. Olho pras minhas mãos, ainda estou segurando o bule. Olho pra frente, ele já não tem cabeça; mas a gravata indica onde estaria, e os olhos de filho da puta ainda me julgam do ar.