Random, a ficção VI

— — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — —

Random é um exercício de escrita.

Sorteio uma ou uma série de palavras usando um aleatorizador. Para escrever uso um aplicativo que, caso não se escreva nada em cinco segundos, apaga tudo o que foi escrito até então. Faço sessões de cinco minutos de escrita ininterrupta, aumento, finalizo e edito o texto, e o publico.

aplicativo de escrita: http://www.themostdangerouswritingapp.com/

— — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — —

Palavras: sharp, magnetic, position, burglary, frozen, whales

Entrando pela sala, rente à parede da estante de livros, não houve barulho algum. Ele ouvia alguns passos no andar de cima, alguém caminhava de meias e conversava coisas do dia, e a luz principal da sala estava desligada, por isso criou a coragem. Viu a oportunidade da janela destrancada, a pouca luz do abajurzinho decorativo, havia estudado a família por dias, sabia que eles não desceriam mais para o primeiro andar. 
Estava confiante. Só se preocupou em disfarçar o barulho, por isso entrou, como imaginava que estavam os moradores desse belo sobrado, descalço. Se sentia uma espécie de ninja, um ninja confiante. Caminhava alto, nada daqueles passos acovardados de quem entra sem saber em um ambiente. Ele era um estudioso.
Às sete a janta. Sempre às sete, não falhava. Hoje era quarta, por isso brócolis, arroz branco, um bife empanado seco, quatro copos de sucos já servidos quando todos sentassem à mesa. Não rezavam antes do jantar, mas o pai rezava antes de dormir de um jeito meio caricato, ajoelhava na beira da cama, e a mãe rezava de um jeito bem desleixado, e ele achava que era mais uma manobra política de boa convivência com o marido. O quarto das crianças ele não via de fora, mas isso era até bom, que é mais difícil de explicar se te pegam.

Caminhou até a geladeira. Achou graça de ver as coisas que viu de tão longe e por tanto tempo de tão perto. É como se tivesse dado zoom na família de margarina, ou se tivesse entrado na propaganda e pudesse mexer no cenário. Na porta da geladeira ajeitou no ímã o desenho de umas quantas baleias da mais nova das meninas. Tinha sido na quarta passada, ela trouxe a obra da creche e todos a aplaudiram, era muito bonita, mas como conseguira aquelas cores tão brilhantes, ah, é o gliter, não é mesmo? Tudo muito bonito, mas ele buscava o buraco. Havia de ter um buraco, onde estava a rachadura?

O maior problema não poderia ser só a oração mal feita antes de dormir da mãe, havia de ter mais. Mesmo porque, se ela errava na estética de sua devoção, que não demonstrava com furor, ele não podia alcançar o que passava na sua cabeça e, vai ver lá é um templo, e ela realmente reze com fervor para que sejam afastados de sua casa os bandidos que espionam. A comunicação anda falhando, no caso. Deu uma risadinha, na mesma hora que abria o congelador da geladeira de aço inox escovado, no mesmo momento que enxergou o sorvete de framboesa pela metade, no exato instante em que a faca entrou-lhe na altura do rim até o cabo, no mesmo segundo que sentiu que o que mais incomodava nisso era o frio da empunhadura e, um segundo depois, sentiu o gosto da faca na boca, mas não soube explicar como isso seria possível, mas também, que se me dá. Já ia perdendo a razão e o tato, já não via direito, embaçaram as vistas e o pé tremelicou, mas não sentia o ferimento. Seu corpo entrava em choque, ele mal podia entender o que estava acontecendo enquanto lutava para continuar acordado, respirando e consciente. O pai, que descera de luz desligada — por isso não notara — e que devia conhecer a casa por tato e cheiro, cavou com colher grande, das de cozinhar, no tal sorvete de framboesa, e a ultimíssima coisa que seus ouvidos captaram e que conseguiu processar foi o pedido, dos dentes tingidos de corante natural de cochonilha, o pedido de, vá lá, que não contasse do sorvete pra Soraia.

Cochonilhas. Ou o que sobrou de algumas.