O Insólito Humano de Schrödinger

Tarde meio nublada de um dia qualquer. Renato estava em seu escritório, preenchendo suas planilhas com números precisos, olhando sites de fofoca e baixando a discografia do Frank Zappa via torrent. Suquinho de manga feito pela mamãe em sua garrafa térmica.

Em um segundo qualquer, o acaso faz uma decisão. Renato, que momentos atrás estava apenas trabalhando para ser alguém na vida, sente uma pontada na região da costela, sua respiração começa a ficar bizarra, seus sentidos ficam confusos e seus olhos pesados. Renato perde a consciência e espatifa no teclado do computador.

Seus colegas correm para socorrê-lo. A secretária liga para a emergência e em alguns minutos a ambulância chega. No caminho até o hospital, algo incomum passa dentro da cabeça de Renato. Ou melhor, fora dela. Ele estava vendo a si mesmo em terceira pessoa. E, sem saber como, estava acompanhando a sua própria trajetória pelos corredores do hospital até o leito.

“Que droga é essa?”, é tudo o que conseguia pensar.

“Ah, é a sua primeira vez? Não há muito o que se preocupar, você vai ficar bem. Eu acho. É Renato o seu nome, não é?”

“Sim, sou eu. Onde está você, ou melhor, O QUE é você? Como consegue falar comigo?”

“Perdão se te assustei. Sou Godofredo, meu corpo está na sala ali do lado. Mas eu estou aqui na sua frente, é difícil achar alguém nessa mesma situação.”

“Quer dizer que estamos mortos?”

“Não, nada disso. Isso se chama experiência de quase morte. É quando o seu Eu não está aqui nem ali nem acolá, ele apenas está. Não é divertido enxergar em 360 graus? Hein?”

“Você parece bem familiarizado com isso, Godofredo. Já esteve assim antes?”

“Algumas vezes. Tenho um certo problema com frutos do mar, mas não consigo parar. Então, de vez em quando, eu venho parar aqui, quando o destino quer. Encontrei a mulher da minha vida aqui, dois anos atrás. A mulher da minha quase-vida. Ou da quase-morte. Tanto faz.”

“Vocês se casaram?”

“Ela morreu alguns minutos depois. Tem esse risco. Mas não se preocupe, você parece ser bem mais saudável que eu. Vai voltar rapidinho. Meus batimentos cardíacos estão voltando ao normal também. Hoje à noite devemos estar bem. Vamos comer Fugu?”

“Sim, adoro Fugu. Pena que não tem muitos restaurantes de frutos do mar decentes por aqui”

“É verdade, Renato. Se fossem um pouco melhores, talvez eu não precisaria pagar por um plano de saúde tão caro. E, em todas essas noites que passei no hospital, eu podia estar em casa degustando meus vinis do Frank Zappa”

“Você também gosta do Zappa?”

“É lógico. Ele não para de lançar discos, mesmo tendo morrido tanto tempo atrás!”

“Godofredo, me sinto meio puxado para baixo. Eu estou voltando? Isso é um sinal?”

Renato abre os olhos.

“Isto é um sinal. Nosso paciente acordou!”, disse o cirurgião.

Subitamente, Renato era nato outra vez. Estava confuso, como qualquer pessoa, depois de ter passado essa loucura, deveria estar. Sua recuperação é rápida, e no início da noite ele recebe alta. Ele se encontra com Godofredo, que também recebera alta e o reconheceu. Os dois viram melhores amigos e vão comer fugu e sair por aí para botar Frank Zappa no último volume tocando no carro para incomodar a vizinhança.

Renato começou a olhar os dias de outra forma, frequentemente imaginando-se em terceira pessoa e criando o costume de questionar o que fazia. Virou um verdadeiro questionador, buscando encontrar a resposta para a vida, o universo e tudo mais.

“Qual seria a resposta para a vida, o universo e tudo mais? Por que estamos aqui? Por que eu estou aqui? Aliás, por que fui parar no hospital?? Eu estava tão bem… Como eu fui comer fugu, se nem existem restaurantes desse tipo por aqui? Como eu sei que gosto de fugu?? E quem diabos é Frank Zappa??????”

bip… bip… bip…

Os batimentos estavam se normalizando.

“Isto é um sinal. Nosso paciente acordou!”, disse o cirurgião.

Renato estava re-re-nato. O verdadeiro, agora.

“Que droga é essa?”, falou bem baixinho.

“Não conseguimos identificar. Você teve sorte de sobreviver a todas essas substâncias que encontramos. Você precisa de algo saudável agora. Sua mãe deixou um pouco de suco de manga aqui para você.”, respondeu o cirurgião.

Renato, então, começou a se lembrar das coisas enquato se recuperava. Decidiu começar a trabalhar para ser alguém na vida.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.