Amém

Talvez seja um pouco tarde pra falar da minha decepção natalina, mas é que eu precisei de um tempo pra engolir a minha insensibilidade nessa data e coisas mais. 
Depois que meu avô morreu a maionese da minha mãe perdeu o sabor, a batata recheada que meu tio prepara todos os anos, agora tem cebola demais, e a minha tia não aguenta mais esperar até meia noite para rezarmos e depois comermos, como era o costume. E rezar. Eu não consigo mais fechar os olhos e emanar coisas positivas. Eu fico ali de mãos dadas observando meu pai e a minha mãe, meus tios, meus primos e meu irmão rezado de olhos fechados e ouço todo aquele discurso de bênçãos que eles pedem antes de começarem com “pai nosso que estás no céu” e nada disso me toca. O que me toca é a minha frieza, a minha falta de fé. De repente me sinto sozinha sala e ouço como música as orações enquanto meu coração transborda de saudades do meu avô. Acho que ele era minha religião. Porque eu conseguia sentir cada palavra que ele dizia e deixava de dizer. Porque ele fez de mim, observadora. Porque ele me ensinou a acreditar e foi enquanto eu acreditava que tudo ficaria bem, que ele morreu. E essa dor, tem dias que é insuportável e não tem mais ninguém aqui pra me dizer que tudo vai ficar bem.
Mas quando todos terminam dizendo “livrai-nos do mal”, eu digo amém.
Quem sabe ainda vale apena acreditar.