pare de achar que o que você não gosta é obrigatoriamente ruim

o famoso “não gosto de azul, tenta amarelo” é algo a ser evitado. na hora de comentar remova o fator pessoal da equação

passei dias com esse título e todas as perguntas que o rondam, martelando na cabeça. fui resistente a escrever esse texto. sabe como é que é, de opinião a internet está cheia. opinião baseada em achismo, então, nem se fala #foradilma. porém, após perder um pedaço de noite pensando sobre isso, resolvi escrever. melhor pra fora que pra dentro, já dizia shrek.

esse texto, a priori, é destinado a publicitários, visto que sou uma e que foi a partir de uma discussão publicitária que estabeleci meu raciocínio. ainda assim, acredito que ele pode servir para outras profissões, inclusive pra vida, se me permitem a petulância.

vamos lá! a premissa é bem clara: não é porque você não gostou de algo que esse algo é ruim. em um primeiro momento pode não parecer fazer sentido, afinal, a gente gosta do que é bom e vice-versa. certo? errado!

o que é bom e o que é ruim? antes de responder, precisamos enxergar por outras perspectivas

mais do que isso, precisamos enxergar tecnicamente. feeling, referências, gosto pessoal. Tudo isso importa, mas só isso é achismo, salto alto, e claro, gosto pessoal. o mesmo gosto pessoal que leva o cliente a querer mudar o azul do layout por amarelo. não é maldade muito menos implicância. é que ele realmente acredita que o amarelo é melhor. note que o conceito de bom/ruim não é algo assim tão claro. para você o azul é bom e o amarelo é ruim. vice-versa para o cliente. quem está certo e quem está errado? é nessa hora que somos obrigados a enxergar pelo ponto de vista mais importante e o único que importa: o cliente final. a pessoa a quem aquela comunicação se destina, e é para ela que tudo deve ser pensado. quem é ? o que come? onde vive? para ele, o azul tem uma conotação de de segurança e paz ou de solidão e tristeza #feelingblue?

percebeu onde eu quero chegar? só porque você não gostou de algo, não quer dizer que é ruim. significa que você, com todas as suas preferências pessoais e seu próprio background, não gostou daquilo. uma opinião, baseada apenas em gosto pessoal, torna-se 100% não profissional.

e isso me leva a outra discussão — e é onde, de fato, eu quero chegar: se somos tão críticos em relação as milhares de alterações feitas a gosto do cliente e contragosto nosso, por que na hora de analisar o trabalho dos outros — sim, analisar, publicitário não se satisfaz em apenas ver e vida que segue — insistimos em fazer isso como clientes e não como profissionais?

veja bem, isso não é uma crítica às críticas #inception, muito menos aquele corporativismo safado que pede para você sentar no rabo e fica calado por ~ética~ profissional e respeito ao coleguinha. longe disso! o que eu quero dizer é que: você fazer diferente não significa que o outro fez errado, tampouco o desqualifica.

a gente tem mania de criticar porque simplesmente faria de outra forma. lembra daquele layout que eu falei lá em cima? o cliente só pediu para trocar as cores porque ele faria diferente. e pode até ser que funcione bem, talvez até melhor do que o pensado incialmente por você, mas enquanto essa alteração (crítica) vier sem qualquer argumento ou embasamento teórico, vai ser birra, implicância, “eu faria diferente, logo faria melhor”.

isso quer dizer que sou obrigado a concordar com tudo?

não. quer dizer que dizer que, assim com o que é bom, o que é ruim precisa de razões para assim ser classificado. nossas críticas tem que dizer mais que apenas um like ou dislike. eu não gostei, mas e o público? quem é ele? porque foi feito assim? o azul é um problema ou sou eu que não simpatizo com a cor? no fim dessas perguntas você vai encontrar uma uma dessas duas respostas:

  1. essa campanha é um desperdício de briefing por a/b/c razões
  2. EU não gosto dessa campanha, mas ela é é pertinente

o exercício — prometo — te fará menos medíocre na hora de analisar e, especialmente, na hora de criar. vai te tornar mais eficiente, mesmo que o custo seja o de ser menos criativão.

sei que criatividade é uma outra discussão, mas noto que, para muitos, esse é o grande divisor de águas do que é bom e do que não é. para muitos esse é o único critério a ser avaliado na hora de julgar o mérito de uma campanha; não deveria.

publicitário inteligente é aquele que sabe que nem todo job tem ânsia de ser genial. ele sabe quando é preciso usar uma ideia simples; e ideia simples não é uma ideia pobre. as palavras, a diagramação, os ícones, as imagens e as cores não o traem porque ele sabe usar (e entender) corretamente o significado de cada uma delas.

é como disse guilherme jahara, chief creative officer da f.biz, em uma entrevista:

nós não somos artistas. somos publicitários. publicitário sem bom senso e um mínimo de obediência ao que precisa ser dito é igual um artista ruim ou só burro. nós temos regras. agora, que criatividade precisa de liberdade e menos gente dizendo “não isso, não aquilo”, isso precisa. é o bom senso de deixar a criatividade fluir. obedeça a uma “regra”: faça diferente, lindamente bem executado e com pertinência para a marca e consumidores.

mude ou morra!