As horas que são


Um rapaz olha, ensimesmado, pela janela fora. Uma professora eleva o seu tom de voz para despertar os alunos ou, talvez, quem sabe?, para se manter acordada. Duas da tarde. É uma tarde branca, branca quando ninguém brinca no recreio, branca entre os muros pintados de musgo, brancos os corredores da escola que costumam estar feridos de cor, cobertos de mochilas e cadernos, mas que agora se nos apresentam assim porque já toda a gente está dentro das salas de aula. O rapaz que olha pela janela fora é como que um presente que nunca se desembrulhou. É uma daquelas pessoas que parecem retirar um certo prazer ocluso da disciplina estoica, de não querer, de nunca se indignar, de nunca desenvolver paixões doentias sobre coisa nenhuma, é uma dessas pessoas incompletas que existem e persistem, e que muito provavelmente mais não fazem. E, sabendo-o assim, ainda maior foi o meu espanto quando ele fez o que de seguida vos descreverei. Este meu colega, que eu nunca ouvira falar senão para responder às perguntas que a professora nos colocava, levantou-se, a meio da aula, com uma postura quase solene, e disse:

-Adeus.

Nada mais que isso. Tivesse sido qualquer outra pessoa a fazê-lo e apenas soaria ridícula, talvez fosse uma piada oca, daquelas que ninguém entende verdadeiramente, mas cuja estranheza basta para que se desate o riso. Não era o caso. O rapaz tornou a sentar-se. Notei uma luz aliviada no seu olhar, como se tivesse terminado algum processo catártico. A restante turma entreolhou-se, incrédula. Alguns riram-se. A professora não reagiu, e, por cansaço ou embaraço, decidiu prosseguir imediatamente com os exercícios gramaticais. Este meu colega não era, de todo, uma pessoa de pessoas, não gostava de se destacar nem por bons nem por maus motivos, não desejaria ser mais que um figurante na vida dos outros, e, no entanto, teve este comportamento inexplicável. Mais bizarro isto se tornou quando me apercebi de que esse adeus nem sequer preludiava uma despedida. Pensei que fosse mudar de escola. Isso não aconteceu. Ele continuou a aparecer. Estivemos na mesma turma durante os três anos de secundário. Continuou meditativo, introvertido, confundindo-se com a sua própria sombra. A gente esqueceu-se do sucedido como esquecemos qualquer coisa que nos fuja da vista. Certo dia, despertei de um pesadelo com a memória deste episódio a boiar à superfície. Estávamos perto do fim do décimo segundo ano. Tentei tirar as coisas a limpo. Quando cheguei à escola, perguntei-lhe se se recordava da sua despedida, aquele momento, na aula de Português, a meio do nono ano. Ele pontuou a minha questão com um breve “sim”. Seguiu-se o meu inevitável “Não percebi essa tua despedida. Ainda cá estás”. Ele respondeu, surpreendentemente concentrado, parecendo enfeitiçado pelas palavras que dizia:

-É claro que ainda estou cá. Olha à tua volta. Ouve os ponteiros do relógio, ouve e decora a sua marcha. Um, dois, três, quatro. Sabes que horas são? Há quantos anos andas por cá, neste mundo? Não achas que já é tempo de te despedires? Por acaso sabes que horas são?