Era junho.

Recebi um email anônimo esquisito me convidando para um encontro/almoço semana passada. Foi conveniente, pois estava me sentindo sozinho/com fome. ‘Topo’, respondi. Seguindo instruções confusas, cheguei em um restaurante de comida vegetariana papuana a bordo de um caminhão de entrega de vassouras. Cumprimentei o porteiro, que parecia me esperar ansioso. Sorriu, acenou, limpou o suor das axilas e abriu a porta. Entrei inseguro, ‘será que eles servem fritas? Fritas são vegetarianas? São papuanas?’. Em breve os mistérios teriam fim. Todas as mesas estavam vazias, exceto pela última, ao fundo. Nela, um grupo de homens de roupas escuras escondiam-se em meio às sobras, falando baixo. Pareciam bravos. Fiquei apreensivo.

Eram os Titãs.

Assim que me viram, abriram um largo sorriso. Alguns se levantaram, ‘Beto!’, disseram em uníssono. Pareciam desesperados, precisavam da minha ajuda. ‘Não temos tempo a perder’, disse aquele alto de cabelos encaracolados, mas meio careca, ‘nosso disco novo é uma merda’. Assenti com a cabeça em um pesar reprovador. Eles recuaram. Aquele magrelo narigudo acendeu um cigarro, parecia uma chaminé: vermelho e feito de tijolos. ‘O que a gente faz?’, perguntou o que é careca assumido.

‘Calma’, falei. ‘Vocês não estão… fritos’, eu disse, enfatizando a última palavra na esperança de que alguém entendesse que minha preocupação maior era com a fome. ‘Não é como se vocês não tivessem feito isso antes’, concluí, desapontado pela tentativa infrutífera. ‘Mas é que dessa vez foi diferente. Foi meio que intencional’, disse o japonês, que eu não tenho certeza se faz parte da banda.

Fiz um olhar compenetrado. Puxei minha caneta do bolso e comecei a desenhar linhas desconexas em um guardanapo. Isso sempre me ajuda a ter boas idéias. Isso e pensar. ‘Avaliaram a possibilidade de gravar um acústico?’, questionei, sem muito esforço. Eles balbuciaram. Não podiam usar violões novamente até 2022. ‘Estava no contrato de rescisão do Nando Reis’. Fiz um novo sinal de reprovação com a cabeça, ‘amadores’. Eles se calaram.

‘Bem, então só há uma solução’. Seus olhares se ergueram. tinham medo de ouvir a frase que já imaginavam desde o início. Eu precisava acabar logo com aquilo. Não havia sentido em deixar aqueles sexagenários sofrendo. ‘Uma coletânea de músicas inéditas póstumas’. Silêncio. ‘Mas isso implicaria que nós estivéssemos mortos’, questionou aquele, o meio idiota. Deixei que o eco de sua última palavra ocupasse o restaurante com decoração de roedores gigantes. Eles entendiam, não haveria outra maneira. ‘Qual a melhor forma?’, perguntou o magrelo. ‘Asfixia por gás. Está na moda’, respondi. Eles pensaram a respeito. Fazia sentido. ‘Ok. Todos para a cozinha’, disse o careca, ‘o forno é industrial’, concluiu. ‘Já vão para lá’, aproveitei, ‘peça umas fritas ao cozinheiro. Mesa 17’.

Foi um dia triste. Eles não serviam fritas. Mas o inhame na manteiga era matador.