Minha geração fotolog e a grande baleia azul

Quando eu era criança, já navegava na web, sendo desde cedo influenciada pela resposta instantânea dos aparelhos que me circundavam. A geração da década de 90 me inspirava a viver uma adolescência variada em experiências, pois tinha como ideal uma juventude que vivesse ao máximo a efemeridade das coisas.

Tudo já tinha passado, as novidades fervilhavam e morriam com pressa, e por isso, o jovem noventista procurava passar desprendida e curiosamente pela vida, a lá o filme “Curtindo a vida adoidado”, em uma mistura da atitude rock n roll com o niilismo grunge pós-punk. Quando eu tinha onze anos, surgiu o emocore.

Também com essa idade, comecei a receber as informações de que a terra iria acabar — porque estávamos exterminando os recursos naturais. Os animais, as plantas, a vida natural estavam sendo destruídos pela civilização. Compreendi o significado da palavra “misantropia”: o ódio à humanidade.

Let me take a selfie

Os adolescentes emos pareciam enclausurar-se nos próprios mundos, tendo como janela as fotografias das redes sociais e como diferencial a aparente indiferença às expectativas externas. Eu não compreendia essa moda, ainda, até os 17 anos. Meu ideal de libido começou bem, entre amigas, assistindo filmes do tipo “Emanuela” tarde da noite ou conversando coisas proibidas, lendo livros. Nenhum desejo atrelado à pulsão de morte, até o dia em que eu deprimi.

Quando comecei a usar remédios, não conseguia sentir alegria límbica, mesmo nos momentos bons; então perdi as esperanças e a coragem de me relacionar. Já não era o tipo saudável, então o cigarro— que foi meu vício diário por meia década — passou a ostentar aquela situação emocional, como um alerta de “não se aproxime”, assim como outras rotinas tóxicas.

É óbvio que, no fundo, eu desejava afetar e pertencer a um grupo de pessoas, mas todas as minhas amizades iam de mal a pior: relacionamentos destrutivos, muitos deles, atraídos por meus maus hábitos, me romantizavam. Diziam querer meu bem, porque afinal de contas, além de querer viver cada dia como se fosse o último, eu também era diagnosticada com depressão; mas me mutilavam, de formas variadas e cruéis, o que eu deveria ver como parte fundamental das relações humanas — o sadomasoquismo e a tirania.

Por muito tempo, cuidar da vida do outro parecia equivalente ao verbo cuidar.

Half life

As mulheres desejadas da década de noventa eram, das duas uma, surfistas douradas ou junkies irreprimíveis. O feminismo liberal fez as mulheres acreditarem que não bastava ser livre, era preciso também consumir um lifestyle — um estilo pessoal, que ditaria as roupas que você deve usar, a forma de se comportar, enfim, a persona que você vestiria socialmente. Como todo movimento que populariza a liberdade individual, o emo era também profundamente liberalista.

Até os quizzes, os testes que vinham nas revistas infantis, elaboravam perfis que ditariam onde você se encaixaria melhor. Ou seja, qual grupo você representaria na roda da garrafa. Comunidades unidas pela estética, tal e qual o emo, onde parecia se encaixar todo mundo que não fosse qualquer dos estereótipos já existentes. Em prisões mentais e concretas, crianças adoeciam sob a pressão de um mundo novo, altamente tecnológico, globalizado, onde possivelmente as pessoas seriam substituidas por robôs.

Onde os sentimentos se tornariam absolutamente dispensáveis, e as relações, cada dia mais virtuais.

Quantas pessoas que vivem a base de rivotril, estabilizantes de humor, antidepressivos, serotoninérgicos, etc. Você conhece? Os artifícios para obter experiências que fugissem do modelo eram cada vez mais autodestrutivos e vazios. Minha geração romantizou as doenças mentais.

Aos 20, meu esporte era beber, continuava tomando remédios, e minha libido ainda respondia ao que os filmes pornôs haviam me empurrado guela abaixo. Eu deveria ser forte o suficiente para não me apegar às pessoas, mas estava tudo bem não conseguir nem levantar da cama, porque era normal. Estava ok odiar a mim mesma, afinal de contas, ninguém se importava verdadeiramente e a repulsa era natural; especialmente quando se reprime as emoções o tempo inteiro — e ser disfuncional era sinal de que eu não me adaptava àquele universo das aparências — que eu, de alguma forma, era especial.

Não havia para onde fugir: ali, então, eu era uma paciente psiquiátrica, e precisava vestir a máscara. Já estava no rol dos “surtados”, dos “desajustados” e, de alguma forma isso significava que eu pertencia a algum lugar — junto aos meus outros colegas incompreendidos, que já haviam sido internados e diagnosticados com bipolaridade, depressão, enfim — a geração de borderlines, passivo-agressivos e ansiosos.

Perguntava-me por que as pessoas — na cabeça dos meus amigos também escravos da tristeza — são as culpadas por sua situação. Por que as OUTRAS pessoas mantem os ideais desse mundo tão cruel? Então voltamos ao cerne do Emocore: Um profundo egoísmo de um lado, e a busca por unicidade (uniformidade) do outro.

— Que o mundo se exploda, porém, que não leve a minha zona de conforto — pensou algum depressivo clínico moderno, marionete de suas compulsões.

Essa construção de personalidade, no caso da minha identificação em alguns períodos de baixo ânimo, baseou-se na crença de que não foi a sociedade do século XXI que nos tornou doentes, e sim a nossa escolha de não tomar responsabilidade por ela. De fugir, nos afastar dessas regras sociais que foram impostas e que confortavelmente nos recusamos a pertencer.

Então, nos sentimos nadando no oceano abissal. Não somos todas Lanas Del Rey ou nortistas pálidas, tão belas no bucólico mundo do subconsciente glamourizado; mas, com certeza, também não somos uma geração que se uniu para guerrear contra o mal: Tornamo-nos servos conscientes, perseguindo uma estética de adormecimento; cujo ideal de beleza é a ruína dos ideais que a indústria do entretenimento nos apresentou.

O maior exemplo de qualquer trabalho com afinco são os Japoneses, visceralmente atuantes, incorporaram a produção em massa; a identidade plástica/de consumo acelerado/de produtos perecíveis e a romantização das doenças mentais — eles são, inclusive, especialistas nisso desde o fim do império, com seus romances que descreviam o vazio nos mais bucólicos detalhes imaginários, ornados por paisagens frias e relíquias de tradições incompreensíveis. Hoje, capitalisticamente, deuses e deusas são aqueles que tem algum poder e se sobressaem entre os outros. No país do sol vermelho se vende a conquista e os troféus, e também impera o consumo.

No japão antigo, o tragicômico era expressado com o corpo todo, e o prazer artístico é definido como um intermédio entre o riso e o choro. Tanto no Butoh, quanto no teatro nu, o riso na tristeza é considerada a mais bela iluminação — É a verdadeira pérola na ingenuidade de uma criança, e a salvação para a alma humana. Nietzsche, em seu livro “Assim falou Zaratustra, conta uma história que acontece assim:

Um dia, ao andar pelos campos, encontra-se com uma imagem aterradora, um pastor deitado na relva com uma serpente negra saindo pela boca, tomado de susto. Ele aproximou-se e puxou e a serpente, em vão, pois ela estava presa na garganta do pastor, então gritava-lhe “morde! morde!”, enquanto pensava “O que será que fez esse homem para que engasgasse com o que há de mais denso e escuro na terra?”. Enfim, após muito tempo nessa luta, o pastor morde a serpente e cospe para fora sua cabeça, levantando-se como um novo homem que ri; um riso tão iluminado que passa a atormentar o próprio autor para o resto de sua vida.

Prazer na dor. Essa é, então, a busca original? O divino amor materno. Todos estávamos simplesmente tentando nos adaptar a um mundo cujos valores não são os de nossa alma?

É por isso que há tanta automutilação, e tanto suicídio? Porque, de tanto negligenciar, nos tornamos incapazes de sentir paz nas emoções dolorosas? Perdemos o prazer de evoluir com a existência?

A primeira vez que me lembro de cair e rasgar a pele, tomei um susto; o joelho sangrou muito. Fiquei olhando aquele sangue escorrer e não sabia qual reação esboçar, lambi um pouco daquele líquido denso e vermelho. Minha mãe gritou, desesperada, e vendo seu medo comecei a chorar.

Talvez a incompreensão de nossos pais com nossa bissexualidade, nossas emoções, diante do medo de um mundo que finge eliminar fronteiras mas distancia as pessoas; tenha feito com que tentemos mostrar o quão afogados nos sentimos entre todas essas prisões.

Talvez por isso tenhamos nos tornado tão ridiculamente autocentrados.

Náufragos de nosso próprio mundo subconsciente, atados à uma imperatividade excludente e moralista, em delicada inconformidade. Essa é a geração que diz que todo mundo é belo, mas não consegue se livrar dos padrões. Que percebe ser a dor física menor do que a dor da separação, mas que não consegue se desvincular do abandono.

Antes só, e orgulhosamente só, do que cercado de idiotas — disse alguém, certa vez, e sentiu-se muito hardcore por isso. Osso duro de roer.

Eu tento compreender e amar, especialmente, as pessoas da minha idade, pois sinto que estamos fazendo o melhor possível para não reproduzir aquilo que nos machucou. É difícil. Quantas vezes eu não quis morrer para não ter que ver a podridão que se esconde dentro de mim? Ao mesmo tempo, quantas vezes eu não me afundei na melancolia, entregue aos braços dessa abominável saciedade social?

Lilith, subconsciente e libido

O criador do jogo da baleia azul, que incita o suicídio através de alguns desafios que envolvem automutilação, tem 21 anos e, já nas mãos da polícia russa, declarou que queria “limpar o lixo da sociedade”. Ah, a faca de dois gumes que são as emoções. Não será aquele que pensa ser forte, mais fraco do que aquele a quem subjuga?

Observar nossos defeitos e falhas no outro causa angústia, mas não existe lógica fora da sociabilidade. Quando percebemos nossas sombras, devemos ser capaz de encará-las e não querer exterminar aqueles que espelham nossas fraquezas. No grotesco do teatro nu, existe um sacerdócio por trás da capacidade de exprimir os entremeios entre as emoções. Dentro do dever espiritual da arte tragicômica, está o de eliminar a dualidade nos sentimentos, abrindo o coração para a extensão de tudo aquilo que é.

Noh mask

Curiosamente, a metáfora da baleia azul, do mergulho no inconsciente; fala sobre algo que somente os heróis poderiam fazer. Segundo a psicanálise, o mito do herói possui como condição sine-qua-non a fase na qual ele vai até o abismo mais sombrio, obscuro, sem luz, sem ânimo. A loucura é perigosa, mas muitos de nós — e me incluo — a conhecem muito de perto. Foi lá que encontrei a redenção para minha via crucis; a compaixão comigo mesma e com aqueles de minha época: Responsabilidade afetiva por quem está à minha volta, e especialmente por mim mesma.

Alguns amigos meus que tiraram a própria vida, possuíam relações difíceis com pais e mães. Eu, pelo contrário, me culpava e me responsabilizava por ser incapaz de gerir minha felicidade e a do outro (afinal, entendia muito mais de computadores do que de seres humanos). A educação escolar não é humana, longe disso. Mas talvez essa tenha sido a chave que me trouxe de volta.

No jogo da baleia azul, as pessoas escolhem culpados para sua situação psicológica, o que também serve de lembrança do narcisismo que envolve a patologia depressiva. Há certa maldade entre irmãos, e assim é com aqueles que compartilham as mesmas emoções: Há uma competição para ver quem é pior, e não quem é melhor. Nesse teatro de vampiros, há uma certa sucção da felicidade, que está atrelado à ideia mórbida de prazer; de encontros sexuais rápidos, consumo versus abnegação.

Talvez estejamos todos nessa linha capitalista, entre dois polos: a virtualidade da vida, e a eternidade da morte. Levada às máximas consequências, somos apenas fantoches dos nossos desejos e necessidades, precisando aprender com urgência a sorrir diante da tragédia; despertando para ver o absurdo de todas as coisas que desprendem da perspectiva unilateral. Qualquer ponto de vista dialético, também é unilateral, a não ser que se pratique a alteridade.

A alteridade, novamente, o teatro da verdade. Seja aquilo que se sente, verdadeiramente, sinta aquilo que se é. Isso é o primeiro passo para uma boa relação consigo mesmo e, futuramente, relações mais saudáveis com os outros. Eu ainda estou praticando, mas escrever esse texto e saber que talvez alguém abra um pouco mais os olhos após o ler, me fez muito feliz.