Por trás da história “branca de neve”

A análise de uma contadora

Henry Hudson

Júpiter está em oposição à terra, vênus está retrógrada e eu tenho desenvolvido uma relação finalmente horizontal com minha bruxa selvagem, anímicamente falando. Astrológicamente, ela é chamada de LILITH. Impulsionada por leituras feministas, li um texto falando que Branca de neve é um desserviço para o mundo de fantasia... Mas será mesmo?

O conto de branca de neve fala sobre uma moça pálida, apática, cujo maior hobbie é ficar entre as flores e frutos. Ligeiramente autofágica, como toda princesa; tem de fugir do próprio castelo pois teme que a rainha quer matá-la, por ser mais bela.

Por trás desse conto, há duas forças antagônicas: A donzela inocente e a mulher experiente, sexualizada (como a farsesca ‘Malévola’, da disney) e forte — que deseja caçar seu coração e guardar numa caixa. O significado metafórico dessa rainha é nada menos do que Lilith, a lua negra, aquela que representa o poder sexual obscuro da mulher, a virgem não castrada, que faz com que dois homens fiquem ao seu lado: O rei e o caçador.

O rei é a carta do poder, enquanto que o caçador sempre é a própria flecha: força de ação masculina. Imposição. Coisa que as princesas, em sua ingenuidade aérea, nunca terão. Branca de neve é para sempre a representação da castidade, da lua crescente em germinação púrbere. No conto original, a rainha era sua mãe, tal como a Medéia de Eurípedes.

Na visão superficial, vemos uma mãe que deseja os orgãos da própria filha, ainda criança, para que ela deixe de envelhecer. Talvez assim seja criado um creme antirrugas a lá magia negra, mas a verdade sobre as metáforas é que elas são crueis para atingir. Passado o efeito, devemos meditar sobre sua mensagem, que nesse caso é sobre a difícil transferência de poder sexual (de vida uteral e poder de gestação) da lua negra.

A bruxaria é a hereditariedade que se passa matrilinearmente, e as filhas tem o poder que herdam de suas mães. Metafísicamente falando, isso nem é um papo genético, mas sim sobre a dificuldade em se carregar certos tipos de karma/poder. A rainha MANDAVA no rei, lembrando que esse conto de fadas é dos mais antigos que conhecemos, possivelmente vindo da europa setentrional ou central.

É sobre a escuridão na alma feminina, a selvagem consumidora de mundos, aquela que nunca falamos sobre. Tal como perséfone, branca de neve sai da primavera e encara a noite escura e fria da alma. Porém, sua mãe não é deméter, a gestação; e sim a própria lunação, onde Lilith guiará sua primeira morte metafísica.

No conto, a princesa fura o dedo no bastão de ébano, vertendo gotas de sangue no chão. A mãe antevê a beleza da filha e imagina-a enredada em situações amorosas. Romantiza-a, e a deseja para si. (Ver o mito da “criança primordial”). A princesa, nos jardins, se comunica com a Anima em sua forma elemental da terra, os animais selvagens, pequenos bichos que a alertam do perigo: “Sua puberdade está vindo aí, filha. Com ela, a menstruação e o desejo sexual. Isso pode arruinar sua paz. Sua mãe quer seu útero pro jantar”.

Ainda nas primeiras versões, a rainha persegue branca de neve floresta, em meio ao inverno rigoroso, onde a menina cai e ela consegue enforcá-la com seu xale real. Lembrando que isso, na época, significava algo entre o rubi e o violásceo. A monarca volta para casa satisfeita, mas a menina não está morta. São SETE anões que a salvam, homens duendes, trabalhadores da floresta.

Para quem já tem intimidade com minhas análises, sabe que a floresta é sempre o inconsciente coletivo. EIS que nesse mundinho de perdição que precede a transformação da princesa, há um casebre onde os sete seres a escondem, e com cuidado aconselham que ela não permita ninguém lá dentro. São os ANIMUS, a figura masculina protetora, que também vem da natureza e são o sagrado masculino na forma de trabalho/tempo (sete é o número do tempoespaço).

Essa casa, no meio da floresta, é onde essa menina passa sua primeira FOME DE ALMA (“Hambre del alma” Cit. Clarissa Pinkola Estés, minha ídola), longe dos seres anímicos femininos, flores, jardim de verão e animais; e tendo como inimiga aquela que engloba as três fases da lua: a lua negra (Lilith, mas também Hécate — a anciã) Ela gostaria de continuar a germinar, mas o solo está seco e há neve por todo lado.

Nas histórias modernas, branca de neve começa a “faxinar” compulsivamente, o que significa uma limpeza no mundo objetivo. De forma intuitiva, ela vai varrendo pra fora de si todas as sujeiras, ou crenças fantasiosas, que a prendiam à sua vida antiga. Vai varrendo de si a ingenuidade, a falha figura paterna e o caçador que a persegue — tomando para si 2 das quatro investidas da rainha, para matá-la.

Branca de neve resiste ao animus do caçador, pois não vê-se mais como indefesa ou presa. Usa o poder de persuasão, mercúrio — a fala, para convencê-lo a fingir que ela já estava morta; tirando assim um dos Animus de sua mãe. Conquistando assim, seu primeiro poder sexual. No conto dos irmãos Grimm, é a própria rainha que investe com diferentes utensilhos “enfeitiçados”: um laçarote de cintura e um pente de cabelo.

Na quarta tentativa, já passou um tempo, ela já está no fim de seu processo de transformação/casulo. Uma mulher bate a sua porta, está coberta por um manto negro. É sua mãe, mas ela não a reconhece, pois Branca de neve já não é uma criança inocente, mas uma jovem púrbere. A mãe, disfarçada de velha, a entrega uma maçã envenenada.

Acho que não preciso pontuar o significado do fruto proibido para a sexualidade da lua negra. Lilith é, nos mitos sumérios e na mitologia da gênese judaico-cristã, o próprio poder sexual e reprodutor da mulher.

Branca de neve, curiosa e seduzida, aceita o fruto, e morde um pedaço apenas. É sua iniciação. Vê sua mãe, transfigurada na velha, mas é tarde demais. Todos conhecem a história do velório, certo? Na realidade ela está presa a um tronco de carvalho, e o príncipe faz com ela… Bom. Não é exatamente uma história sobre casamento. É sobre a perda de virgindade e o amadurecimento da sexualidade feminina.

Precoce, talvez, e de mal tom. Mas desnecessário, considerando a idade média na qual foi disseminada a história, não é. Pra mim, desserviço são os irmãos Grimm, com suas pílulas douradas guela abaixo dos mitos.