O lado que somente eu enxergo: 18/11

6:21

É sério mesmo que eu não vou conseguir dormir mais? Eu tenho mais meia hora pra dormir. Mais meia hora pra tentar sonhar. Mais meia hora aqui sozinho, só eu e eu mesmo. Um copo de frustração com raiva no café da manhã hoje. Meia hora deve dar pra arrumar minha mala de amanhã. De noite não fico fazendo isso. Vou chegar cansado e a dose de whisky vai me ajudar a relaxar dessa semana. Só que eu não bebo. Nem pra encher a cara e esquecer um pouco das coisas eu não tenho capacidade. Ou talvez eu seja esperto pra não me fazer virar outra pessoa, vai que vem uma pior. Chega disso logo de manhã, deixa pra brigar internamente mais tarde, ainda vai dar pra ter vários rounds ao longo do dia.

12:30

Hora do almoço. Eu preciso comprar as coisas da dieta, preciso começar na segunda. Vou mandar uma mensagem depois pra nutricionista. Se tiver horário na segunda, já vou lá iniciar o acompanhamento de novo. Se der pra emagrecer os 5 kgs por mês que ela falou, em 6 meses vai estar legal. Será que as pessoas que realmente são bonitas, sabem que são? A Aline sabe disso? Deve saber. Se não sabe, imagina. Não é possível que ela não é procurada constantemente.

17:00

Eu não aguento mais ficar aqui hoje. Eu não aguento mais ficar aqui. Eu não aguento mais essas meninas hoje. Eu não aguento mais essas meninas. Se eu inventar alguma coisa pra resolver fora daqui, eu consigo uma meia hora de folga até alguém perceber? Certeza que consigo. Se eu ficar mais 5 minutos aqui eu vou enfiar essa caneta no ouvido dessa loira chata. Chega. Até alguém dar falta, já vou ter terminado. Sempre funciona. Saí. Pronto. Subindo. Banheiros do último corredor. Aqui não tem ninguém. Ninguém nas outras portas. 5 da tarde não vai vir ninguém aqui. Porta trancada. Galeria. Vídeos. Esses dois aqui que recebi hoje. Tira o volume. Play. Sem fazer barulho. O da menina no solo deve ser melhor. Bem melhor mesmo. Já terminei. Hora de voltar. Não fiquei aqui nem 10 minutos, mas o alívio foi o melhor. É tipo uma droga esses vícios. A gente depende deles nos momentos de tensão e isso acaba tornando o que te falta sempre. Quando se tem mais fácil, acho que a dependência é bem menor. Quando não se tem fácil, a dependência faz você sentir mais falta. É o mesmo quando fumante compra um maço de cigarro pra deixar do lado da cama, mesmo que ele não fume de madrugada. Meu pai é assim, ele mesmo admite.

19:20

Necessaire — Check. Roupa de amanhã — Check. Cartão corporativo — check. Dinheiro de extra — Check. Documento da reserva do ônibus e do hotel — check. Vou conferir os endereços pra não ter que ficar procurando quando chegar lá. São Paulo é muita loucura pra ir despreparado. Meu noot está aqui. Tudo pronto pra amanhã. O que eu menos preciso é de uma merda no final de semana. Pelo menos esse evento vai durar o dia todo e o tempo passa rápido quando tem muita coisa acontecendo. Em compensação serão algumas horas com aquela atuação de Lorde Inglês impecável. Nojento. Não sou eu. Mas pelo menos é uma boa hora pra largar essa bosta aqui de lado um pouco e achar que sou alguém bom. Quando acaba é um alívio. Volto a ser eu mesmo. Quando acaba é uma bosta. Volto a ser eu mesmo. Essa é o grande ponto chave da minha cabeça. Ela pensa e chega à uma conclusão. Ela pensa e chega à outra conclusão que me mostra o que eu estou tentando esconder. Não dá pra você discutir com o sistema. Ele é o sistema. Ele funciona assim. No meio disso tudo tem eu mesmo discutindo com a minha cabeça. É muito confuso isso? Sim é confuso, é cansativo, é desesperador. Parece que vivem duas pessoas no mesmo corpo. Um corpo bem grande que caberiam dois, mas nesse não é o ponto aqui. É um corpo e uma cabeça que funciona me colocando pra realidade bosta que eu vivo e um corpo e uma cabeça ouvindo isso e tendo que aceitar, porque é exatamente isso que é a realidade. Ambos concordam que é absolutamente estúpido pensar o contrário. A minha vida pode ser deprimente, mas eu não vivo de ilusão. Vou deixar tudo aqui pronto. Meia noite eu entro no ônibus e de lá talvez eu escreva mais sobre o dia. Ou somente posto mesmo. De toda forma tem que estar preparado só pra dar o Publish e pronto. Não quero ficar com a cara enfiada no celular digitando dentro do ônibus. Não quero parecer um depressivo solitário — /ironia.

23:50

Faltam 11 minutos pro ônibus sair e eu já estou sentado, arrumado pra dormir a viagem toda e ainda dá tempo de terminar o texto sobre o dia de hoje. Eu já tentei muito ser normal. Já tentei muito ficar ali tranquilo sabendo que tenho um bom tempo até dar a hora de entrar. Mas e se essa passagem der problema? Preciso deixar alguns minutos pra dar tempo de comprar outra. E se alguém sentar na cadeira do lado e eu vou ter que pedir pra pessoa sair pra que eu possa me sentar no meu lugar, porque desse tamanho todo eu não consigo passar se a pessoa já estiver sentada antes. Não quero atrapalhar ninguém. Não quero ninguém me olhando de cara feia a viagem toda. De cara feia a minha já aparece toda hora na tela do celular antes de desbloquear ele. Já deu. Pronto.

00:06

Ônibus saindo. Chego em São Paulo às 5:30. Direto pro hotel. Se arrumar. Direto para o evento o mais rápido possível. Amanhã vai ser um longo dia e até chegar lá ainda vai dar muito tempo de pensar em uma longa saga que se passa pela minha cabeça todas as vezes olhando pro nada da estrada. Mas eu to cansado demais pra contar isso hoje. É muita coisa e merece um texto à parte. Vou escrever ele e publico amanhã cedo quando chegar no hotel. Hoje estou cansado demais pra ter que passar por essa tortura e ainda ter que escrever. Vamos nós. Tchau Franca. Oi, São Paulo.


Durante 1 mês eu vou escrever em tempo real tudo o que se passa na minha cabeça. E ao final do dia eu vou postar. O porque disso, eu explico nesse texto aqui.

E se você precisar falar comigo em algum momento, por esse e-mail eu consigo responder o dia todo: quasemurilo@gmail.com

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