Like a virgin
Eu demorei a perder minha virgindade.
Aos 24 anos minhas amigas estavam casadas, algumas com dois filhos, outras solteiras e com uma lista grande de parceiros e eu seguia virgem. Nunca foi um problema pra mim. Incomodava-me o incômodo das pessoas, mas nunca a virgindade em si. Quase ninguém sabia disso, obviamente, mas quem sabia me enchia de perguntas e julgamentos. Demorei primeiramente por razões religiosas, depois por ficar muito tempo sem me relacionar com ninguém e, por último, por complexos com meu corpo gordo.
Ano passado tive uma vida bem agitada. Saí muito e balada é feita pra gente beijar na boca, né? E eu beijei. De tanto beijar tive vontade de fazer algo a mais. Pela primeira vez em anos passei a pensar e a me preocupar com isso.
Tinha plena convicção de que a primeira vez seria um dia de normal para ruim. Não teria uma nuvem cor de rosa na minha janela, nem príncipe em cavalo branco, rosas vermelhas ou travesseiro com penas de ganso. Esperava um cara limpinho, com todos os dentes e com pegada, mas que fosse com calma. Era só. Minhas expectativas eram bem baixas, mas a vida, essa sapeca, não nos deixa sem surpresas jamais.
Havia passado belos dias com um rapaz. Ele era carinhoso, educado, me tratava como acho que mereço ser tratada e eu estava bem feliz com aquela relação. Ele já sabia da minha condição e estávamos os dois bem com isso. Não falávamos de putaria, era uma relação normal, a distância, mas normal.
Num sábado viajei pra cidade dele, nos encontramos e quando saí de casa avisei uns amigos que ia sair com o tal boy e todos, muito empolgados, comemoraram o fato de que, finalmente, eu entraria pro mundo do sexo. Segundo eles, não tinha como não rolar naquele dia.
Ele estava dando sinais, eles diziam. Pra mim seria só mais um encontro, mas pra eles seria minha “noite mágica”. Todos estavam muito mais animados do que eu. Recebi conselhos e dicas e eu só queria sair, ver gente e dançar.
Vesti um vestido bonito, passei o perfume que mais gostava, arrumei meu cabelo e fui. Era uma noite bonita, bem fria. Havia passado um feriado incrível com ele e meus amigos e tudo parecia muito bem.
Quando ele foi me buscar, porém, percebi que algo estava diferente. No decorrer da noite tive certeza que mais pesado que eu naquela noite, só o clima entre nós. Não sei o quão bosta tinha sido o dia dele, mas havia uma tensão estranha, rolaram umas discussões idiotas e nem a picanha de um restaurante bacana conseguiu resgatar o clima romântico de antes. Eu estava me esforçando pra manter meu ótimo humor.
Lembro de em certo momento ele me dizer:
“Quero te falar uma coisa, mas não sei como dizer.”
Eu, que quando estou no inferno abraço o capeta, e já sabia muito bem o que viria pela frente, respondi:
“Então vou ao banheiro e você escreve. Quando eu voltar leio e respondo.”
Voltei e no celular tinha:
“Quero te levar pra um lugar especial, mais reservado”
Fiquei pensando o que será que eu estava fazendo da minha vida dando ideia pra um cara clichê desse, mas apenas respondi:
“Quero uma ice.”
Tomei a ice, entrei no carro e fomos. Ainda tive a opção de escolher qual suíte queria. Escolhi a japonesa. Como se fizesse alguma diferença.
A primeira frase dele ao entrarmos na suíte foi:
“Tomara que o meu pen drive leia aqui, pois tenho todos os cds do Wesley Safadão nele.”
Eu gostava bastante do Wesleyna época, mas não era ao som de “Vai Safadão” que eu queria passar aquela noite. Mentalmente procurei as saídas de emergência. Pensei em me esconder debaixo da cama ou fingir um desmaio ou um coma alcóolico, mas lembrei que ninguém entra em coma com uma ice e como queria logo acabar com aquilo insisti nessa tragédia mais que anunciada.
Graças às fadas que protegem as virgens o pen drive não leu!
Sem muitos detalhes, que prefiro esquecer, posso dizer que essa noite piorou e MUITO.
Foi ruim, foi tenso, sem carinho, sem clima, mecânico, até meio agressivo, eu diria. Ele se achou o sex machine, o cara mais incrível da ilha dos caras incríveis e eu, bom, eu perdi a virgindade. Era isso, né?
Então foi.
No final do ato, quando eu achava que mais nada poderia dar errado ele, deitado, ainda pelado ao meu lado, disse pra mim: “Nosso amor acaba aqui, porque o que acontece nessa cidade, fica aqui.”
Não esperava o príncipe, mas não podia imaginar que encontraria o cavalo.
