Psiquiatra é médico de doido

Recorri a muitos métodos desde que as crises começaram. Clínico geral, cardiologista, psicólogo, psicanalista, centro espírita, igreja evangélica, conversa com um ou dois amigos, métodos de relaxamento e respiração, isolamento e textos e mais textos nos meus diários, virtuais ou não.

Me faltava ir a um psiquiatra. Houve indicações, várias, mas eu relutava. Não queria me medicar. Não queria aceitar que eu estava doente. Não queria admitir que eu estava louca e ir a um médico especialista seria a comprovação disso. Psiquiatra é médico de doido. Preconceito puro, orgulho bobo. Grande bobeira! Devia ter ido antes.

Depois que comecei a terapia, eu vinha sentindo algumas melhoras. Achei que já estava bem e achei que podia faltar a terapia por três semanas, afinal eu estava ótima e só iria se achasse que precisava. O que eu não sabia é que isso ia me destruir. Eu estava bem, mas não curada. Eu ainda não podia ter alta, muito menos alta por conta própria.

Pra pessoas como eu, que vivem guardando sentimentos, momentos de euforia como o que eu estava podem ser perigosos, pois a qualquer momento podemos estourar por coisas bobas, que fomos deixando de lado nesses dias de felicidade extrema. E eu estourei. Em casa, no trabalho, com os poucos amigos que restaram e, claro, comigo mesma. Comi o mundo, descontei todo o desespero, angústia, raiva e frustração na comida. E nas lágrimas. Devo ter chorado, sem exagero, por três horas seguidas em um dia. Achei que estava enlouquecendo. Foram uns 3 dias nesse desatino e eu, enfim, cedi e resolvi procurar a ala psiquiátrica.

Foi ótimo!

Pensei que ficaria 5 minutos no consultório com um homem velho, barbado, estúpido que não se importaria em me conhecer e que me daria uma receita com dez remédios que me dopariam. Graças a Deus eu estava enganada! Encontrei uma médica jovem, linda e simpática, que me ouviu por uma hora e meia. Acreditem, ela conversou comigo pelo tempo equivalente a duas sessões da psicóloga, eu quase não acreditei.

Fez um apanhado da minha vida, familiar, amorosa, profissional, religiosa e sondou todos os pedacinhos da minha mente. Me fez chegar a algumas conclusões que eu não tinha chegado ainda. E olha que eu tenho refletido muito sobre minha vida desde que esse turbilhão começou.

Ela me fez ver, por exemplo, que minha relação desenfreada com a comida surgiu lá no passado, quando meu pai comprava bolos, broas e biscoitos gostosos e escondia. Sim, ele escondia de todos e só podíamos comer quando ele também fosse comer. Quando ele não quisesse mais, ele guardava novamente. Nós (eu, mãe, irmã e vó) vivíamos na ansiedade de comer aquela coisa gostosa que sabíamos que ele trazia. Hoje, que eu posso comprar e comer o que e quanto quiser, como tudo de uma vez, pelo medo inconsciente de não ter mais, de ver aquela comida escondida novamente. Não vai acontecer, mas na minha cabeça é um risco. Os registros da nossa mente são muito mais fortes do que qualquer HD.

Outro problema em relação à comida: eu era criança e tinha muita dificuldade pra comer. Não que eu fosse fresca de escolher comida, eu simplesmente não gostava de comer nada, porque tomava muito tempo. Preferia brincar e estudar e fazer qualquer outra coisa, mas todos me forçavam a comer. Eu tinha. Eu precisava. Era pra crescer e ficar fortinha. Era obrigada a limpar o prato, mesmo se eu estivesse satisfeita. Percebem como surgiu aqui uma relação de raiva? Eu estava chateada por me obrigarem a comer, constrangida com a situação, incomodada com aquela obrigação. Nesse momento passei a misturar a comida com sentimentos. De lá pra cá os sentimentos mudaram. Hoje as pessoas me mandam parar de comer, o que não é nem de longe uma situação mais agradável, mas a mistura entre comida e sentimentos permanece.

Uma outra conclusão que ela me fez chegar foi em relação à minha dificuldade em demonstrar sentimentos. Eu me lembro que, quando criança, eu era muito afetuosa, muito sincera e muito falante, o oposto do que sou hoje. Eu sempre estive no meio dos adultos, não tinha crianças na minha família e eu não podia brincar com as da rua, então eu era uma mini adulta cheia de personalidade. Com o tempo e todas as coisas que aconteceram na minha vida, eu aprendi que eu precisava calar meus sentimentos pras pessoas gostarem de mim.

A princípio eu não podia demonstrar fraqueza em casa, pois meus pais estavam se separando e diante do sofrimento de todos eu tinha que ser forte pra poder ajudar (EU TINHA 8 ANOS E PENSAVA ISSO).

Depois eu me sentia culpada por ter “estragado” a vida da minha irmã, que não teve infância e adolescência pra poder me criar enquanto mãe passava o dia todo trabalhando — ela joga isso na minha cara até hoje — e isso me travava em relação a ela. Não podia brigar com ela, ela já tinha feito muito por mim, Deus me livre decepcioná-la.

Eu não podia demonstrar meus sentimentos pro meu pai, porque toda vez eu chorava e eu não gostava de chorar. Ele não sabia lidar comigo chorando e eu ficava mal, então eu fingia que tava tudo bem. Eu tinha muito medo dele, de desapontá-lo, de falar algo que ele pudesse desaprovar.

Eu não podia demonstrar fraqueza pros amigos, pois eles viam em mim um porto seguro. Eu era a conselheira, a mãezona, a psicóloga, como eu ia me fragilizar? Não podia.

Depois, na vida adulta, já com os problemas de autoestima, eu entendi que precisava me calar e aceitar as coisas sorrindo, porque eu era feia, gorda e fora do padrão e precisava que me aceitassem, me quisessem, me amassem. Impossível manter a sanidade com esse peso nas costas, não é mesmo?

Na vida amorosa, eu descobri que começar tudo muito tarde não foi a mais saudável das minhas escolhas. Por eu ser muito religiosa, eu me apaixonava pelos garotos, mas orava e pedia a Deus permissão pra viver aquilo(Sabem o Eu Escolhi Esperar? Então). Os meninos, claro, não esperavam meu tempo e seguiam suas vidas. Com isso, demorei a ter meu primeiro relacionamento real, pois platônicos já tinha tido vários. Foi aos 18 anos, quase 19. Primeiro amor, primeiro beijo, primeiros encontros, primeira vez que saía de casa a noite, primeira decepção. Depois dela mais uma, mais uma e mais uma. 4 paixões, 4 decepções. Pra mim muito trágicas, mas talvez nem fossem tanto assim. Coisas que era pra eu ter vivido aos 15/16 anos e superar de forma diferente, pois adolescentes vivem a vida de uma forma mais rápida, eu vivi depois de adulta e sofri como adulta. Passei a aceitar o “amor” que me davam. Migalhas, traições, mentiras. É o que eu achava que merecia, é o que a vida me dava, é tudo que eu tinha direito de ter. Meu último relacionamento, em especial, causou muitos traumas de uma só vez. Eu passei a viver a vida do cara, gostar do que ele gostava, fazer o que ele fazia e achar que tudo aquilo era um lado meu que vivia escondido. Eu fiquei completamente fora de mim, agindo de uma maneira insana. Irreconhecível. Como me fez mal! Inclusive a primeira crise foi, coincidentemente, depois que consegui coragem pra terminar com ele.

Amadureci muito em outros pontos da minha vida, mas neste setor amoroso sou uma criancinha imatura. Doeu e dói lembrar tudo que passei. O mundo está cheio de pessoas apaixonantes e algumas delas vão me magoar vez ou outra e eu também posso magoar alguém. É natural da vida, só preciso aprender a lidar, conviver e superar isso. E não repetir os mesmos erros nem deixar que os erros alheios me destruam tanto.

Fui comendo meus sentimentos, meus medos, meus traumas, minhas vontades. Me anulei. Me matei. Passei a vegetar ao invés de viver. Não tenho feito mais nada da vida além de me lamentar. Lamento por não ter feito nada e nada faço enquanto me lamento. Hello ciclo vicioso, my old friend!

A médica disse que uma consulta, apesar de longa, é pouco para diagnosticar exatamente o que tenho, mas que, a princípio, não é depressão, é transtorno de ansiedade generalizada com ataques de pânico. Confesso que no fundo me aliviei, pois a depressão é a mais aterrorizante e mais difícil de tratar dentre todas as doenças, na minha opinião. Me receitou um remédio pra ansiedade e um pra compulsão alimentar. Tenho um longo caminho pela frente.

Em resumo, de tanto medo de errar e magoar as pessoas eu me magoei. De tanto medo de fracassar, me paralisei. De tanto medo de não ser tudo o que esperavam de mim, me tornei a pessoa que nada conquistou. E tudo isso me trouxe ao momento atual, de completo descontrole emocional. Nada está perdido, eu sei. Estou com fé que esse tratamento conjugado (psicóloga + psiquiatra) me fará bem, me ajudará a sair desse mar de lama e me ajudará a caminhar muito pra muito longe. Tenho tantos planos, não vejo a hora de eles saírem do papel.

É só fé o que tenho agora, não muita, talvez meio abalada, mas é só. E é tudo.