DIVAGAÇÃO SOBRE A PERCEPÇÃO HUMANA

Inspirado em “Caneta e Papel”. | 24.08.16

“Nasci no oceano”, ela disse. “Não tenho pátria, sabe? Sem referência.”.
É óbvio que a conversa se desenrolou para o mar. Onda vai, onda vem e a menina afirmava aos quatro ventos: “Eu amo o oceano!”.
Seu semblante — tão sereno — , porém, logo se fechou ao ser questionada sobre os mistérios desse lar.
Qual o rio que o preenche sem cessar? “Não sei.”
E o nome dos navegantes que aqui se aventuram? “Nunca me questionei.”
Tem certeza de que nunca viu este mar enfurecer? “Absoluta!”
E enfureceu. 
Era perceptível o desespero das criaturas marinhas só de observar a vibração das águas. Agora o semblante agonizava em um abismo — como se se transformasse em fossa marinha.

Silêncio.

Calmamente iniciei o partilhar. “Me dê a sua mão”, eu disse. “Vamos embarcar a caminho do outro lado do mar, onde até a completude do astro-rei beijando a linha do horizonte não é capaz de assimilar.”.

A superfície é quente, aconchegante. Incita qualquer um a mergulhar no que, atravessado por águas cristalinas, retrata uma maravilha do mundo. Contudo, ao passar da linha do umbigo, o contato da pele com a água causa arrepio. Se tiver calma, acostuma. Se não, torna-se uma pessoa que prefere o campo.

É uma outra realidade aqui embaixo d’água. Não se escuta nada além da respiração e da ânsia por aventurar-se até o fundo.
Ao achar que é possível encostar o pé naquilo que parece ser a areia originária do oceano, pode acontecer de pisar em um anzol de pescador. E isso dói.
“Só não dói mais do que nadar o dia todo e não achar uma mísera conchinha”, ela se queixou. Apesar de concordar, acrescentei: “Mas, quando isso acontece, você já experimentou pedir auxílio aos marinheiros?”
Com vergonha, ela respondeu: “Bom… Digamos que eu estive preocupada, o tempo todo, em encontrar sozinha. Não queria dividir o tesouro com ninguém, sabe?”.

E doeu mais.

Expliquei que, para avistar o que há de mais puro e precioso, é imprescindível a companhia. Precisa-se de quem acople um tanque de oxigênio às costas para se chegar lá. 
E digo mais: a espécie mais bonita, dentre as lulas e os tubarões, só é admirada com excelência no compartilhar. É muito detalhe para dois olhos só.

O alívio se concretizou no céu aberto e na harmonia das gaivotas a voar. “Puxa! Se eu soubesse de tudo isso, já teria…”.

Não.

O mar, aqui do outro lado, só é espetacular por não ser da alçada de nenhum banhista captar toda grandeza, fúria e densidade de sua fundação e de toda a vida abundante que há onde nenhuma engenhoca humana é capaz de levar.
“Quero fazer deste mar a minha pátria!” — encantada, a menina sorriu.

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