O ADJETIVO “CONSOLADOR” NUNCA FEZ TANTO SENTIDO

Tentativa de digerir e organizar meus pensamentos. | 31.10.16

Minha avó, tão sábia e temente a Deus, sempre afirmou: “Libere perdão, filha. Só assim você fará bem a si mesma…”. Confesso que, ao ouvir isso, o máximo que devolvia era um positivo com a cabeça e um sorriso amarelo. Achava que essa era uma qualidade minha muito bem desenvolvida, sabe? Não guardar rancor.

Há meses tenho, junto a mulheres fortíssimas que estudam comigo, revivido abusos que, temporalmente falando, prolongaram-se, também, por muitos e muitos meses. Tratava-se de uma dupla hierarquia em jogo: o sujeito era homem e nosso professor. Foram tantos momentos de humilhação, silenciamento, banalização e descaso institucionais que, hoje mesmo, tivemos de nos forçar e esforçar − digo isso porque exigiu, de fato, muita força de cada uma de nós − a vê-lo novamente, em reunião.

Esse foi um dos momentos mais desconfortáveis e que me deixaram sem chão de toda a minha vida. Todas aquelas meninas gaguejando ao falar, hesitando em olhar, respirando fundo, com os olhos emaranhados. E ele ali… Desconfortável também, acoado, exalando tristeza e pesar.

Que difícil foi. Lembrei da minha avó e chorei. Chorei muito, muito mesmo. Entendi que, ainda, não faz parte de mim essa facilidade em perdoar. Por mais que eu sentisse sinceridade nas palavras, como era custoso, naquele momento, acreditar no arrependimento e na mudança de conduta pelo motivo verdadeiro…

É engraçado como Ele nos pega de surpresa, né? Com muita doçura e, ao mesmo tempo, firmeza, uma voz sussurrou ao meu coração: “em que você se difere dele?”. Chorei mais. 
De supetão, fui tomada por aquele trecho em Hebreus 4 que aponta a seriedade da palavra e das promessas de Deus, alertando-nos da soberania e imutabilidade daquilo que a Voz proferiu. Jesus, a Palavra que se fez carne, veio ao mundo e passou por todo tipo de sofrimento. Ele se relacionou pessoal e intimamente com a natureza humana. Ele chorou também!

Meu cérebro derreteu a reunião toda. Tentava elaborar frases e verbalizá-las para expressar tamanha angústia, mas nada saia. Só me vinha a necessidade de acreditar naquilo que aquele homem abusador dizia. Até porque eu já sabia… Em que eu me difiro dele? A minha natureza é tão pecadora quanto é a dele e nossa… não me canso de repetir como é difícil. 
É difícil aceitar que o mesmo Deus que me abraçava naquela hora fazia o mesmo — e de forma graciosa — com o sujeito que mais me dá náuseas.

Ele, Jesus, me perdoou e perdoa, entende? E eu me acho a pior pessoa do mundo. Que moral teria eu de não perdoar aquele homem? Mas que difícil foi.

Na realidade, eu não sei muito bem como aconteceu. Só sei que me vi passar por uma transformação de mente tão intensa que me conduziu ao que eu agora entendo por “consolador”.

Explico: o homem é mau. É pecador, rebelde, desobediente. Tal concepção há muito fez cair por terra a visão romântica de que séculos e séculos de misoginia não determinariam o futuro das questões de gênero. 
Apesar de se tratar de uma visão “pessimista”, serviu para que eu pudesse entender que a restauração de todas as relações não é da alçada de nenhuma − e muito menos de nenhum − de nós. Nós não somos capazes disso. A restauração está nEle, que funciona em uma lógica imensamente diferente da nossa, e que, com sua Palavra confiável nos prometeu − e já cumpre − quebrar as correntes da injustiça, exterminar qualquer tipo de exploração, libertar os que estão presos e cancelar as dívidas. Ele já tem se movido e não nos decepcionará − porque Ele nos disse.

E é por isso que eu declaro que, por meio de Jesus Cristo de Nazaré, eu pude perdoar o meu professor homem. O mesmo que, por muito tempo, fez-nos comportar de forma antecipatória, evitando qualquer tipo de contato que pudesse nos assujeitar à presença dele.

Louco, né? Agora eu estou com uma vontade enorme de abraçar minha avó que não sei se passará tão cedo (mesmo depois do abraço).

“Tu estás a par de tudo isso — do desrespeito, do abuso. Eu creio que os desafortunados um dia serão socorridos por ti. Tu não os decepcionarás: os órfãos não serão órfãos para sempre.” Salmo 10:14