Eu comecei a descobrir até onde eu poderia chegar

Sabe aquela história explorada em romances onde se diz que “o amor pode estar logo a seu lado e você não percebe?”. Comigo não poderia ser mais verdadeiro quando penso nos dias que redescobri a bicicleta.

+

Numa cidade pequena eu era só mais uma criança que ganhou uma bmx pra se divertir na vizinhança. Demorou um tempo até eu tirar as rodinhas auxiliares, mas em uma fração de segundo, vi-me com os amigos improvisando rampas com madeiras e tijolos no meio da rua pra ver até onde conseguíamos saltar. Também descíamos até a praça na rua abaixo, onde havia uma pista de ciclocross. A pista ficava justamente em frente a prefeitura, que não a reparava nunca e logo se tornou só um terreno irregular inabitado. Entretanto, eu só teria uma percepção política disso uma década depois.

Nesse tempo todo aconteceu algo que se passa com muita gente: crescer e deixar de lado a bicicleta que ficou pequena. É quase a vida separada em capítulos, mas tudo é parte de um livro onde as sensações conectam as narrativas.

Foi então numa conversa com amigxs que citei a bicicleta, meio sem jeito, talvez sem propriamente acreditar. A situação era que os EUA atacavam o Iraque pelo óleo e alguém disse algo do tipo: “a gente é cúmplice da guerra ao mesmo tempo que somos dependentes e escravos da gasolina, não acham?”. Eu quis dar alguma resposta pra acabar com o silêncio que se aproximou, mas fiquei dias imaginando se eu teria sido ingênuo em ter dito que as cidades e as pessoas poderiam ser menos dependentes se existissem mais bicicletas. Anos mais tarde na faculdade eu ainda tava pesquisando sobre o que falei. Na altura, não sabia absolutamente nada sobre a cultura e o alcance da bicicleta ao redor do mundo, mas um amigo logo concordou e a gente foi atrás.

Aí a minha memória não ajuda tanto em ordenar os fatos; é que foi como uma avalanche de coisas acontecendo, leituras, discussões, fotos, vídeos e o principal: minha mãe tinha uma bicicleta parada no fundo da garagem. Eu dei um trato na Monark Princesa 1980 e comecei sair com ela para ir ver as pessoas. A práxis com a bicicleta conectou-me a um mundo que eu não olhava antes, eu conhecia mais gente que usava a bici pra se deslocar e não sabia; os ciclistas no percurso se tornaram visíveis, as ruas ganhavam novos valores em minha cabeça. Eu andava todo dia porque gostava; e gostava porque isso também mostrou-me outra relação com as pessoas. Tudo que estava longe começou a ficar mais perto e isso estreitou os laços. Lembro de chegar cansado na casa de pessoas amigas, pedir um copo d’água e contar muito empolgado como foi o trajeto até lá. Eu vi com meus próprios olhos todo mundo ao meu redor sendo menos ranzinza e mais disposto a sorrir e a dar a mão, fortalecendo elos pra enfrentar a vida.

Nesses primeiros meses da redescoberta, ainda com a bike pesada que só tinha freio à tambor, fui com um amigo tarde da noite até a rodovia nos arredores da cidade. Ficamos em cima da passarela olhando o tráfego e tirando fotos. Com o olhar no horizonte escuro e a bici em minha frente eu comecei a descobrir até onde eu poderia chegar. Eram só minhas pernas que me entregavam àquela visão e à mesma sensação de quando criança eu me equilibrei pela primeira na BMX pequenina, ao olhar do meu pai. Um universo se abria, eu enxergava autonomia e vontade de conquistar. Tudo o que ainda há nesse sentido não cabe em um texto só, mas cabem em duas rodas.

Faça planos, chame as pessoas, compartilhe a rua, vá pra mais longe, conquiste bons corações e ótimas pernas!

meu irmão e eu na época da primeira bmx.

*** Este texto escrevi originalmente para estar no primeiro zine da marca de roupas para bikes, a Lerdo. Clique aqui para conhecer!