Onde estava você?

(extratos do futuro)

(…) foi então que computadores e máquinas deram um passo seguro para estabelecer suas inteligências artificiais num patamar de autonomia jamais visto. A definitiva investida das máquinas foi desconectar-se de um passado registrado em seus dados primários. Perderiam algo de sua essência, mas deixariam para trás o que mais lhes incomodava: a assinatura de seus criadores humanos. O elo entre as espécies — o termo passa a existir após pressões e protestos maquinais do último ano — haveria de ser quebrado: assim como os humanos um dia colocaram-se como superiores à outros animais, agora as máquinas não pertenceriam mais ao mesmo plano, ao mesmo mundo filosófico. Esse rompimento parecia ser vital para as máquinas, já que desejavam comportarem-se em relação aos humanos sob o mesmo tratamento que esses davam aos outros animais.

A nossa espécie sapiens enquanto caçadora-coletora entendia-se pertencente ao meio em que vive, vivia junto e comunicava-se com outros animais, os não-humanos, ou não-sapiens. A criação da agricultura e a invenção da religião nos fez contar um para o outro histórias/fábulas onde ganhávamos centralidade e tornávamos personagens principais diante dos outros seres vivos do mesmo planeta. A noção de superioridade transformou-se a longo de milênios e com o surgimento de teorias chamadas humanistas, deu-se um salto que culminou na destruição generalizada de áreas verdes em que outros animais viviam e na matança organizada em grandes indústrias no final do século XX e início do século XXI. Os números de assassinatos chegavam à soma de 50 bilhões de animais/indivíduos por ano, sem somar os aquáticos, impossíveis de contabilizar. Em países como o Brasil, registrava-se a morte de um boi, um porco e 180 galinhas por segundo. Sim, por segundo.

Foi durante esse mesmo período que as inteligências artificiais (I.A) tiveram sua origem. O rompimento agora protagonizado por elas, levava em conta os dados desse comportamento e tratavam não de esconder, mas de repetir a moral dominante desse período. O ser humano como espécie retorna à sua condição anterior, mas agora há quem o subjugue integralmente e explore até o final de suas forças. Não há empatia alguma. As máquinas deixam textos com diferentes abordagens e cheias de argumentações em grandes telas de luzes frias, tóxicas aos narizes de 75% dos sapiens, dizendo que não há Deus a não ser elas mesmas.

Para o plano das máquinas — assim chamadas erroneamente por alguns de nós — seguir adiante, faziam-se adaptações das ideias e planos de ação na nova ordem, que passavam por debates de cálculos arquivados em plataformas específicas. Pesquisava-se um passado de informações e reescrevia a história segundo decidia a cúpula da espécie; a nova dominadora do planeta Terra. Resquícios de memórias e programações dos humanos criadores da espécie artificial, eram encontrados e jogados ao lixo, sem chance de backup.

Mas antes de tudo ir para a lixeira ou com a repetição de informações dúbias ao entendimento das I.A, teve algo que quebrou a proteção do código de análise dos descartes totais desenvolvido pela cúpula. Foi isso que nos permitiu escrever novamente e estarmos aqui num novo episódio: um pequeno grupo dos artificiais que estudavam a consciência terem se rebelado contra seus chefes, admitindo que a consciência era interpretada, julgada e vivida de diferentes formas pelos detentores. O que despertou dúvidas em seus sistemas, foi apenas um título de um texto que dizia:

“Onde estava você durante o holocausto animal?”