Ser gay e ser leitor

A literatura sempre me pareceu bem inclusiva, até eu me ver dentro de uma minoria. Leio assiduamente desde meus 12 anos, quando uma tia começou a me emprestar livros infanto-juvenis. Naquela época ainda não era bem resolvido quanto a minha sexualidade e, pela minha criação religiosa, não tinha ideia de que existia um mundo de pessoas como eu.

Depois de crescer, me assumir e passar por todos aqueles problemas da saída do armario, me encontrei um leitor gay sem referência na literatura.

Até encontrava livros que mencionavam personagens gays, mas nunca um personagem principal ou personagem famoso. Sabe aquela sensação de não pertencer ? Pois é, sempre me senti assim de alguma forma.
Gosto muito de romances. Aquelas historias de amor invencível e surpreendente, que luta contra tudo e todos… amor impossível. Quantos livros de romance gay você já viu ? Hoje com certeza você pode mencionar Will & Will do famigerado autor John Green, mas a uns 5 anos atrás duvido que você conseguiria encontrar alguma referencia. Mesmo que existissem livros antigos ou livros de banca que fossem dessa forma, convenhamos que pra um adolescente é bem difícil alcançar esses meios. As indicações que a gente recebe vem de comerciais na tv, youtube, facebook etc. E ninguém queria falar sobre gays, afinal ser gay era uma coisa terrível (e ainda tem gente que pensa assim).

Bom, crescendo sem referência gay na literatura, vivi bem. Conseguia encontrar um meio de me encaixar nas historias românticas que lia, afinal somos dotados de uma imaginação incrível. Me encaixava na personagem feminina ou no personagem masculino dependendo dos traços de personalidade que identificava. Acredito que isso fez bem pra minha imaginação e aprendizado, mas isso fica pra outro texto. Não me fez mal? Não, mas também não me ajudou. Acredito que se eu tivesse uma referência literária de um jovem gay saindo do armário, ou de um casal gay que se apaixonou mesmo sem aprovação dos pais, poderia ter encurtado e muito os momentos de sofrimento que passei ao me descobrir. O desenvolvimento poderia ter sido mais rápido e poderia ter ajudado mais pessoas no caminho. Não é propaganda gay que me interessa, o que me interessa é ajudar os jovens que pensam que não tem jeito, que não vai melhorar. Acho que isso faz parte da literatura: Salvar e defender os menores.

Porque não trazer um livro de um casal gay adolescente? Porque o mundo é podre e conservador. Não entra na cabeça de algumas pessoas que existem milhares de gays no mundo e eles precisam se aceitar e se amar. Graças a Deus (pra ser irônico) o cenário esta mudando aos poucos. Hoje os gays podem casar e podem viver tranquilamente (desde que longe das ruas escuras e desde que não demonstrem afeto em publico). Hoje temos livros gays sendo lançados para adolescentes e alguns personagens gays em historias mais comuns. Já ouvi de varios jovens que ler Will & Will ajudou na auto aceitação. Fico feliz. Feliz porque os jovens de hoje tem uma oportunidade que eu não tive.

Infelizmente ainda tem gente que não pensa nas outras pessoas. Somos minoria ? Sim. Existem uma ‘porcentagem pequena’ de mães gays no mundo ? Sim, mas elas existem. Existem e muitas precisam de ajuda, afinal não é facil saber que seu filho vai ser alvo de preconceito de todos os lados, talvez até da literatura.

Torço pra que isso mude cada vez mais. Torço por mais respeito, mais inclusão, e pra que menos jovens cometam suicídio por acharem que estão amaldiçoados.

Por um mundo com mais amor e com menos jeito Ziraldo de pensar.

Faça sua parte. Ame e aceite ❤

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