hipocentro e magnitude do sismo

eis o sismo — john coltrane

enquanto pesquiso sobre os sismógrafos, john coltrane arremessa spiritual no meu peito. o primeiro minuto causa no meu corpo uma reação confusa. ele entra como um punhal que antes de abrir novos abismos, cicatriza milagrosamente os existentes. daí vem a bateria, descompassada como um coração que corresse pra te alcançar quando já eras tarde demais.

ela segue charmosa cortina de fumaça misteriosa e alucinada. vem a parte lenta, sinuosa – beijar, tirar a roupa, encontrar quente todas as partes de grande circulação sanguínea. depois a urgência e o improviso – toques doces entre mordidas, tapas, apertos, puxões e sacanagens agudas.

ao cabo de quase 10 minutos, ele volta pra aquela confusão inicial. e voltamos nós, depois de alguns orgasmos, a encarar nossos olhos marítimos com calma. um bicho que, saciado e sem pressa, lambe patas, costas, antebraço, pescoço, cintura e ancas. um delírio que só se compara aos sonhos ou a uma poesia de cortázar no último hound.

te reconheço, subo pelo perfume do teu cabelo
até essa voz que novamente solicita, contemplamos
ao mesmo tempo a dupla ilha em que somos
náufragos e paisagem, pé e areia, 
também tu me levantas do nada
com a errância do olhar pelo meu peito e meu sexo,
a carícia que inventa em meus quadris seu galope de potros.

(…)

e recomeçam os naufrágios, a lenta natação até as praias,
o sonho de bruços entre medusas mortas e cristais de sal onde arde o mundo.

sem que eu peça, ele emenda in a sentimental mood. duke ellington chega primeiro e suave pra, logo em seguida, john entrar como quem tem a chave mas arromba a porta por escolha, pra te receber armado de coisa alguma. a tua pele elétrica, carne antena da alma. pólvora e sangue. um calor que vem de ti e não do sol. toda tua geografia desenhada num papel fotográfico não revelado.

te escrever é, antes de dizer, ouvir as coisas de outra forma. meu coração registra e amplia vibrações da terra. carrego no peito um sismógrafo.

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