Entrevista ~ Felipe Soares

Eu fiz essa entrevista em janeiro desse ano pra entrar num fanzine que tava na pira de fazer, mas não rolou, mas como acho que as palavras abaixo são muito importantes pra ficarem guardadas pra mim, resolvi postar online.

Eu conheci o Felipe Soares pelo facebook num dia que ele postou o link da minha ex banda na sua timeline a partir dai descobri os projetos que ele é envolvido como o 151515, Amandinho e Transtorninho Recs e acabamos virando amigos.

Foto por Hannah Carvalho ~https://www.instagram.com/bandsonframe/

Acredito que o mundo precise de mais pessoas com as ideias dele.

leia o que ele tem pra dizer e ouça os sons que ele faz abaixo.

Pra começar acho que é legal as pessoas saberem sua idade, profissão, onde vive, mais o que você quiser que te defina atualmente.

Também acho! E ó hahaha tenho 20 anos, moro em Recife, estou no último ano da faculdade e preciso arrumar um emprego, é tudo o que eu sei, além de que a Transtorninho não tem condições de me sustentar financeiramente! haha

Conta um pouco sobre como começou a tocar e quais foram suas primeiras pretensões com música?

Meu pai é músico então desde criança tocava coisas aleatórias. Bem pequeno decidi virar guitarrista, mas essa ideia mudou quando eu virei pré-adolescente e ouvi The Who pela primeira vez. Eu queria ser o Keith Moon, virei baterista. Eu queria tocar muito mesmo, então praticava horas, muitas horas por dia batendo no travesseiro e vendo vídeo no YouTube haha eu era meio antissocial. Minhas pretensões eram conseguir tocar Baba o’ Riley e ter uma banda de metal, gênero pelo qual eu enlouqueci nessa mesma época.

A partir de quando ou o que te fez montar banda, tocar ao vivo, tentar fazer algo mais concreto na música?

Tive essa banda chamada Bifrost quando eu tinha 13 anos, acredito — minha memória é péssima! Tocávamos covers: Deep Purple, Iron Maiden, Black Sabbath… éramos crianças viciadas em RPG e metal melódico. E eu sabia que era uma grande brincadeira. Eu queria profissionalizar a parada, os caras não haha aos 14 anos fui convidado por um amigo distante que hoje toca lambada, o Gabriel, ou Givly Simons, para montar o que foi a minha primeira banda de verdade, a Sticky Garden. Foi uma época boa.

Como tu conheceu ideias mais diy, lofi e toda essa cultura que vem com esses conceitos? Isso influenciou algo na forma como encara as outras áreas da sua vida?

Conheci o DIY antes do punk, assim como muita gente, eu acho. Eu fui crescendo e percebendo que eu nunca tinha participado de nada mainstream, nem tinha vontade, pra mim o independente, o underground nunca foi uma opção, mas o único caminho. Depois de um tempo quando eu fui ler sobre o punk, as bandas, o rolê e tudo mais eu entendi que muita gente já tinha pensado nisso e eu tava apenas começando haha isso tudo tem muito impacto sobre mim. Você sabe como é! A gente é o que a gente toca, é o que eu respiro, é o que você tá fazendo agora… Essas coisas são muito importantes mesmo pra mim e pro mundo.

Cara, conta um pouco como é essa sua conexão com Recife e Maceió. De onde você é realmente?

Genial! Sou nascido e criado em Maceió, Alagoas. Quando chegou na hora do vestibular eu tava naquela fase de odiar todo mundo, e eu só queria ir pra longe, o mais longe possível. Meus pais de repente disseram que se eu passasse na UFPE eles me manteriam em Recife. Putz, morar sozinho, tudo o que eu queria. Estudei muito e passei em Jornalismo, hoje estou no último ano do curso! Em Recife minha vida mudou completamente, ainda bem haha aqui foi onde tudo começou: Amandinho, Transtorninho e sei lá mais o que haha

Como é o rolê ai? tem lugar pra tocar? dá muita gente?

Rapaz, eu acho que aqui já foi pior. Mas o rolê aqui é igual a muito canto: não tem espaço pra tocar, o centro (que tem vários espaços) tem muito cover, é bizarro, não existe nenhum tipo de incentivo, etc. Mas o importante são as coisas boas: aqui tem muita gente produzindo e disposta a contribuir, tem vários rolês de vários estilos, as coisas vão pra frente e as pessoas estão ficando menos acomodadas. Claro que existem muitos problemas. Em Recife muita gente prefere ouvir Chico Science a música autoral de um adolescente qualquer. A gente é o contrário né, e por meios dos eventos que a gente faz aqui, do rolê que a gente constrói, a gente vai descobrindo que não estamos sós! Não tem muito público, mas tem. A galera troca ideia, aparece, tenta fazer os shows mais baratos… Tudo bem que a cidade não deixa, temos que lembrar que Recife é Recife, uma cidade desigual dominada por algumas famílias que levantam prédios cada vez maiores todos os dias e sucateiam o transporte público. Falo isso pra que possamos pensar que os poderosos aqui são bem poderosos, então não é tão simples fazer um show na rua ou abrir um novo espaço. E a galera faz haha nossos amigos de bandas como a Rabujos e a Eu o Declaro Meu Inimigo fazem show na rua vez ou outra, e também nas periferias, nos lugares que a galera não frequenta ir. Estamos caminhando!

Conta um pouco sobre suas inspirações, suas influências. Discos, artistas, Livros, filmes, pessoas, lugares etc

Ai que lindo! Poxa, nossas inspirações são tantas né haha mas vamos lá: eu sou um grande fã do Estúdio Ghibli, dos filmes do Miyazaki, ao mesmo tempo que sou viciado em filme de terror, gore, thrash, ação e até desenho tipo A Hora da Aventura, de livro eu tenho lido muita coisa de música, tipo o Dance of Days, do Mark Andersen e Jenkins, que conta a história do punk em DC, nos Estados Unidos — gosto muito desse tipo de livro. Documentário mesmo, amo! Eduardo Coutinho é incrível, descobri isso logo antes dele morrer, infelizmente. E o que tem mais me influenciado de música é uns metais, de Alcest a Liturgy, e umas bandas novas como a Sheer Mag, que tem aquela cantora maravilhosa. Eu também amo muito RVIVR e Dance of Days!

Eu meio que vejo você nas letras/melodias da Amandinho, 151515 etc numa coisa muito de tentar ir além das próprias limitações, de acreditar em si mesmo mesmo com tudo contra, isso rola mesmo? reflete na tua vida?

Vixe, total. Fico muito feliz quando as pessoas percebem isso porque é exatamente o que eu quero passar. Eu tenho problemas grandes com depressão e ansiedade, e demorei muito pra descobrir que o melhor remédio pra sobreviver nesse mundo doido é acreditar em si mesmo. Talvez eu esteja errado, mas por enquanto penso muito nesse sentido!

Facebook da Amandinho

Como foi a gravação do primeiro disco da Amandinho?

Putz, melhor impossível. Gravamos do jeito mais rápido e simples possível. É a fórmula que eu tento seguir haha fizemos tudo em Maceió, na casa dos meus pais, que lá tem um home estúdio com uma bateria. Então foi bem simples: alguns microfones dinâmicos, uma placa e breu. Gravamos tudo em umas duas semanas, a mixagem e demorou um pouco, pois eu e Smhir távamos atolados de coisa — moramos juntos aqui em Recife!

Eu li no texto de release do disco a frase, “É o faça você mesmo acima de tudo, não importa se não vai ficar “profissional”, o importante é fazer. “ O quanto de verdade isso tem pra vocês? Seja na Amandinho ou na Transtorno.

100%. Cresci nesse rolê né, como eu disse. Lá em Maceió a Popfuzz, selo e coletivo cultural, foi bem importante pra eu entender melhor as coisas. E pra mim, pra a gente da Amandinho e da Transtorninho, é isso. De que adianta ter os melhores equipamentos, saber tocar e o caralho a quatro se você tem preguiça de gravar, não faz questão e gosta de ficar esperando? Se nós não fizermos, quem vai fazer por nós? Levante-se e faça o seu pensando nos outros, é o que queremos dizer haha

Como é pra você a experiência de tocar ao vivo?

Putz, é muito fácil: tocar é a melhor sensação do mundo. Melhor do que gravar, melhor do que transar, passar no vestibular ou sei lá o que haha pra mim é a minha forma máxima de expressão, principalmente quando as pessoas entendem. Tipo tu aqui me entendendo! Fico felizaaaço!

Eu vi que vocês acompanharam a parte da tour que o Lupe de Lupe fez por ai, gosto muito deles, como foi isso?

Ah, a gente conhecia a banda, eles falaram que tavam vindo pro Nordeste e não sabiam como ia ser a tour, daí nos organizamos e fizemos o rolê deles aqui em Recife. Foi muito legal, ficamos todos muito amigos! Foram ótimos dias e deu tudo certo no evento que fizemos. O resto da turnê eles tinham arquitetado também pela internet, e como o mundo é minúsculo, pudemos ir em Maceió também, já que a Popfuzz lançou aquele EP deles “Recreio”. Foi massa haha

Como nasceu a ideia da transtorninho? Quem faz parte e etc

Nasceu numas conversas de madrugada com meu homemate Smhir Garcia, também de Maceió, também integrante da Amandinho e da Transtorninho. Em Maceió tocávamos sempre e estávamos acostumados com o rolê. Quando chegamos em Recife, vimos que a coisa era diferente, daí tivemos a ideia de fazer um selo já que o Smhir já tinha experiência com essas coisas e eu e Danilo estávamos bem empolgados. Johnny entrou depois, já quando começou a Amandinho etc. As peças se encaixaram e hoje em dia todos usamos shorts.

O que vocês buscam nos artistas que saem pela transtorninho?

Acima de tudo sinceridade — no trabalho, no rolê, em tudo! Vontade de mudar as coisas, vontade de fazer as coisas, originalidade e genteboice!

Quais são os planos pro 151515, Amandinho e Transtorninho?

Rapaz, o 151515 é meio que um projeto morto, é difícil eu gravar mais alguma coisa, porque ele já foi feito com essa intenção — reuni minhas músicas em inglês e que eu tinha feito entre 15 e 17 anos e gravei. Meio que pra registrar uma fase da minha vida, sabe? A Amandinho estará fazendo vários shows por aqui nos próximos meses, e estamos nos preparando para ir até São Paulo de carro, parando e tocando durante o caminho. A Transtorninho tem planos audaciosos haha queremos profissionalizar a parada e quem sabe fazer uns vinis… estamos estudando a possibilidade!

Fala ae algumas bandas atuais que você gosta e outras que você não gosta.

Pensando estritamente no underground acho que tem banda boa em todo canto. Posso falar das que eu mais escuto, acompanho, gosto e boto muita fé: Baztian, Capona, gorduratrans, Under Bad Eyes, Jair Naves, Born to Freedom, Talude, Lindberg Hotel, Incesto Andar, enema noise (muito foda o disco novo), Lê Almeida, Luvbugs, Ostra Brains, Mabombe, Lupe de Lupe, Fábio de Carvalho, Jonathan Tadeu, Garage Fuzz, e putz se eu for falar mais eu não paro hoje haha mas todas essas eu gosto muito! O que eu não gosto é de umas coisas de Recife, tipo Siba ou Otto… nem sei se isso é underground, sei que eu não gosto! A gente gosta de barulho, de problema, você sabe como é haha não de coisa resolvida, bonita e suave! Mas o que tem de pior são as bandas que pregam a intolerância e não somam com nada haha mas esse tipo de coisa é tão ruim que não merece nem ser citado

E o que é ser jovem pra você atualmente?

Ser jovem pra mim é não beber porque tá todo mundo bebendo, é chamar o amigo de machista quando ele se comporta como um, é batalhar muito pelas coisas, curtir muito e se conhecer muito. Ser jovem é igual a ser velho, só que com mais energia, mais inseguranças, mais dúvidas e muita vontade. Só acho que a gente tem que fazer as coisas e não ficar só na vontade!

Like what you read? Give Tim Fleming a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.