hoje

sábado

inicinho de mês

a gente não espera nada desse conjunto de cinzas misturado as buzinas

estou, finalmente, na cidade que não dorme

na selva de pedra

e então foi aqui

assim do nada

depois de um dia inteiro estudando

uma noite mal dormida e de uma desenfreada vontade de questionar a deus

que diabos estou fazendo aqui

eu fui por fim

sair desse quarto

pela primeira vez dei um meio olhar para essa outra realidade que mora do outro lado da minha porta

e numa conversa que podia muito bem ter como plano de fundo um hospital ou algo assim, pois estava claro:

era desagradável para mim e para aquele outro ser

mas então, saiu de mim de forma tão leve e natural que mal percebi realmente ter dito.

mas eu disse. disse sim.

chamei-o de pai, falei do meu tio e de suas aventuras juntos.

falei de ter a sua coragem de abrir mão do certo e buscar aquilo que faria a minha vida ter algum sentido

falei e pela primeira vez parecia mesmo que eu tinha te conhecido.

que antes de decidir tínhamos sentado e conversado a respeito daquilo tudo

não tinha sido ninguém que havia me dito

não falei como sempre falo

falo como quem tem mesmo o pai morto e que nunca nem sequer o viu.

falo com peso, com dor sobre algo que um dia me falaram, mas que no final das contas desconheço.

afinal, essa é a história do meu pai ou daquele cara da novela das nove? porque by the end of the day os dois são desconhecidos pra mim.

Mas não

não nessas últimas vinte quatro horas tão cheias de sei lá o que

nessas horas de agora eu vejo sim o reconheço sim e sinto sim e muito a sua falta.

falta do teu abraço. dos teus olhos. dos meus olhos. de ver a coragem que carrego escondida em mim, escancarada em você. Estampada em teu corpo com tinta permanente. Sem medo. Sem medo. Sem raízes. Sem.

difícil chegar nesse ponto

porque eu me tornei uma sem-alguma coisa também. é o que a física diz: toda ação tem uma reação.

e eu sou o resultado disso

No meu corpo tem estampado com tinta permanente: Sem pai. Sem alguém para correr nos dias de caos. Sem lembranças. Sem tempo de vida juntos. E por fim, só eu.

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