O que você quer?
achei que seria mais fácil responder
mas neste exato momento
a minha cabeça pesa toneladas
e meu cérebro se contorce
buscando respostas plausíveis.
(o que eu quero?)
Nada vem.
Nada, nada, nada
nada.
Você surge no emaranhado
sem sentido produzido dentro
de mim.
É tudo meio confuso
mas posso destingir a sua imagem
do resto caótico.
Te vejo sorrindo
enquanto te beijo.
Em teus olhos, mesmo fechados
me vi
num futuro distante
aos quase oitenta anos
sentada ao teu lado em algum
lugar desse mundo doido.
(o que eu quero?)
Os nossos corpos não estariam do mesmo jeito
e muito menos, o nosso amor.
Ele estaria em cada osso e célula nossa.
Impregnado dentro da gente.
Sentiríamos o vento bater em nossos rostos,
e com ele a certeza de que
bom
fizemos as escolhas certas ao longo da vida.
Nossas mãos se encontrariam
como num sinal
de confirmação bilateral.
E mesmo com as mãos enrugadas,
ainda me sentiria daquele mesmo jeito
quando sem jeito
você segurou a minha mão e me puxou pra multidão.
(o que eu quero?)
Mas
nossos rostos se afastaram
depois deste beijo.
Vi teu sorriso de longe
e nos teus olhos não havia mais um futuro
onde tem espaço para mim.
Aos oitenta, não estaremos mais juntas.
Não estamos agora.
Eu
estou aqui
nesta noite de quarta-feira
escrevendo mais uma vez sobre o amor
que amor
eu sinto por você, menina.
E mais uma vez,
você não está aqui para ler.
(o que diabos eu quero?)
Não está aqui para sentir o vento bater em nossos rostos
como num sinal de aprovação do nosso amor.
Porque
bem
estavam certos.
Só o amor não é suficiente.
Não é.
Não foi.
Mas aqui estou
deixando registrado
pela milésima vez
que eu amo você.
O que você quer?
repetiu.
— Eu quero que você seja feliz, menina.
baixei a cabeça
senti a sinceridade da minha resposta
e a tristeza
da certeza de que
a tua felicidade não é ao meu lado.
