Liberalismo e debate pós-moderno nas pautas de opressões do século XXI

Mulheres da revolução russa: Klavdia Nikolaeva, Nadejda Krupskaia, Inessa Fyodorovna, Aleksandra Kollontai, Angélica Balabanoff — fonte: Brasil de Fato

Por entre os movimentos sociais, como herança da ascensão do neoliberalismo após a queda da União Soviética e com notável anticomunismo propagandeado pelo que compõe a nova fase do capitalismo — se estruturando no que as doutrinas da ciência social nomeiam de Estado Democrático de Direito — , ascende também um fenômeno responsável por garantir a manutenção do poder por parte da classe burguesa, que introjeta no pensamento coletivo, em especial da parcela da classe trabalhadora que protagoniza o debate de opressões que vigorou no fim do século XX, a ideia de superação das experiências socialistas no mundo, forçando-as a crer em uma falsa teoria de libertação, que se dá ainda dentro do modelo capitalista.

Ainda que não seja este o cerne desta discussão, é válido entender que o capitalismo, ao passo em que conduziu massivamente as propagandas sobre a inviabilidade e a utopia de um Estado operário e na tentativa de provar a falência do socialismo com a queda da URSS, vestiu também uma nova roupagem, dado o também desacreditado fascismo que tomou o poder em países como a Itália e a Alemanha. Entretanto, essa estratégia burguesa evidencia que o liberalismo é uma outra face do fascismo, que igualmente propõe uma oposição à luta travada pelos bolcheviques. Trata-se, portanto, de uma ideologia que, embora pareça se opor aos governos totalitários, em verdade dialoga perfeitamente com eles, ato expresso no prosseguimento de Mussolini à política do laissez-faire na Itália, a título de exemplo.

O Estado Democrático de Direito é, por esse motivo, uma situação institucional jurídica dotada de uma concepção ainda irreal da democracia operária: uma concepção que está distante de atender aos verdadeiros anseios da classe trabalhadora. Trata-se de um resgate conciliador cuja função, dentro do sistema de divisão de classes, ainda é sustentar o Estado burguês e desmobilizar a luta dos trabalhadores com a promoção de uma liberdade que, decerto, não existe. Entretanto, também o esquerdismo e a social-democracia não apresentam um conceito satisfatório de libertação, senão uma política antimarxista de submissão da classe trabalhadora e um enfraquecimento da verdadeira luta proletária em detrimento de um programa pequeno-burguês¹.

Com o avanço do debate de opressões sociais, principalmente após ter sido capitaneado academicamente no fim do século XX por autores que aderiram ao pós-marxismo e à crença na superação da sociedade moderna, os comunistas enfrentam no século XXI uma problemática dentro dos movimentos sociais: o apolitismo, o apelo à luta individual das pautas identitárias e a desmobilização das minorias para a causa comunista, dada a contaminação desses movimentos pelo fenômeno pós-modernista. É ele responsável, dentre outras coisas, por formular regras próprias dos espaços e fileiras de militância, estabelecendo um egoísmo coletivo e desviado da propriedade de fala e da luta exclusiva, em que são as vítimas da opressão estrutural, e apenas elas, aptas para manifestar o protagonismo de luta.

Considerando que as opressões se sustentam nos pilares do capital, ignorar o protagonismo dos trabalhadores é, acima de tudo, esquecer que, embora eles façam parte, por vezes, das características que identificam as diversas formas históricas de dominação (homens, brancos, heterossexuais etc), não se beneficiam do cruel massacre econômico, que é o seio em que se formam as outras formas de exploração. É dizer, a lógica capital, embora decerto estabeleça alguns “privilégios”, elege concomitantemente que esta norma deve possuir vigor dentro da ordem e da classe burguesa. São regras e linguagens próprias à burguesia, cujos estilhaços se respingam dentre os trabalhadores graças ao iludido credo de que “o trabalho lhes confere um status ascendente”.

Não é preciso dizer que os trabalhadores não experimentam de fato esse status ascendente, e o aumento rítmico da venda da força de trabalho não lhes conferirá algum dia os privilégios burgueses, como promocionam os liberais. Não é inferível que a organização social burguesa, com suas convenções e mini-estruturas de funcionamento que coadunam com a lógica da exploração, faz base às mesmas regras que a organização dos trabalhadores. Mesmo Kollontai, em 1913, estabeleceu as distinções entre as mulheres trabalhadoras e as mulheres burguesas², ao delinear que aquelas lutam pelo interesse comum da classe, considerando suas demandas específicas, enquanto estas reivindicam os mesmos direitos do homem burguês: seus maridos, pais e irmãos.

Articular-se contra os grupos sociais e ignorar a luta de classes e o protagonismo burguês nas opressões sociais implica em uma autodestruição, que força os trabalhadores a alimentar um combate interno, isto é, um ódio de trabalhadores para com outros trabalhadores, e um desmonte da mobilização conjunta para derrubar o capital. Trata-se de uma estratégia burguesa para estimular o defasamento da luta de classes e da articulação proletária.

Ainda que o pós-modernismo não seja, de fato, uma corrente ou um movimento organizado, visto que sequer chega a ser um termo adotado por autores para definir as diretrizes ideológicas do próprio pensamento e sequer possui linha teórica que o defina, ele se caracteriza como um fenômeno e se fundamenta em um anticomunismo diferente do que se apresenta no conservadorismo e, por esse motivo, sua linha teórica é voltada para o liberalismo, inclusive por sua proximidade com o princípio da autonomia privada.

Foi com a ascensão desse pensamento no debate de opressões que se engendrou, dentro dessas lutas, a ideia de que o socialismo é incompatível com as causas de minorias, além de criar uma distância ideológica que nunca ocorreu, nem em teoria nem em prática, conforme se vê nas contribuições de Engels sobre o modelo de família burguesa³, com destaque à essencial produção, posteriormente, sobre feminismo marxista e da própria condição das minorias durante e após a Revolução Russa em 1917.

Parte da crítica com a qual rebatem os pós-modernos é que “as opressões de raça, gênero e expressões de sexualidade existem mesmo antes do capitalismo e, portanto, a concepção de que não há libertação fora do socialismo é falsa”. Ainda que, no caso concreto, talvez não se trate de uma desonestidade intelectual, prova-se aí o profundo desconhecimento da teoria marxista: conforme se inicia o Manifesto, “a história da humanidade é a história da luta de classes”. Mesmo que o capitalismo não tenha sido o modelo adotado pelo mundo desde o início das sociedades, ele foi o responsável por simplificar os antagonismos de classes a uma relação burguesia-proletariado, porém sem o menor interesse por suprimi-los. Não obstante, foi ele o responsável por acelerar e intensificar o processo de exploração, tornando-se muito rapidamente essa máquina destruidora que conhecemos nos tempos de hoje.

Além disso, alegam os pós-modernistas que “a experiência socialista na URSS, ainda que tenha garantido de forma vanguardista os direitos das minorias, não foi suficiente para suprimir as relações de opressão social e, portanto, não cabe dizer que essas relações são frutos da exploração econômica”. Ora, não obstante infundada crítica, é ingenuidade exigir que em menos de um século de experiência socialista — e, somado a isso, os desgastes soviéticos pós-guerra civil, dentre outros fatores — anulem-se todas as relações de opressão social existentes desde o início das civilizações e dos modelos político-econômicos.

Não faz sentido criar no ideário coletivo o sentimento de luta individual e deslocado da luta de classes. Nas relações familiares, o modelo de família importa um modelo burguês, comumente europeu, em que o homem burguês enxerga na mulher o seu instrumento de produção, e o casamento burguês não se incorpora ao modelo de sociedade operária.

Atualmente, os movimentos identitários enfrentam um processo de setorização das lutas, que incorre no erro de individualizá-las e reduzi-las a uma guerra em que “cada minoria deve lutar por si”. Essa intensificação, nos últimos anos, permitiu que essas discussões jamais se harmonizassem, mas, pelo contrário, criassem e alimentassem um ambiente cada vez mais hostil entre elas. Tal estratégia liberal reflete os interesses do capital de desmobilizar uma luta unificada, de caráter classista e que o confronte de maneira direta. Dentro deles, evidenciam-se pautas sem qualquer recorte de classe, o que os torna espaços dominados pela defesa de concessões que o próprio capitalismo não hesita em fazer aos grupos pequeno-burgueses que se alojam nesses espaços independentes e destoantes da luta socialista organizada. Essas concessões são fundamentais para alimentar a ilusão de conquista de direitos rumo ao pleno atingimento da igualdade. Ledo engano.

Tampouco podemos alimentar as ilusões das minorias sociais dentro das eleições burguesas na figura de alternativas reformistas ao conservadorismo. Em contraposição, é necessário se articular em combate à falsa representatividade que o pós-modernismo tanto exalta. A estratégia burguesa tem se renovado e utilizado do artifício da representatividade liberal, em que a figuração supostamente protagonista, sem qualquer transformação do status quo, importa “dar espaço e ecoar a voz da luta das minorias”. Crer nisso é um erro em que incorrem os movimentos sociais: sem aliar-se às demandas da classe trabalhadora, os governos garantem a imobilização dos movimentos sociais e possuem maior liberdade para executar seus antigos programas imperialistas em favor dos interesses das oligarquias nacionais.

Também as fragmentações dos movimentos sociais revelam o perigo de pequenas lutas individualizadas, com objetivos distintos e, portanto, sem força política. É por esse motivo que, atualmente, os movimentos sociais estão cada vez mais infestados de propostas de pequenas reformas que, ainda que progressistas, demonstram os desvios pequeno-burgueses e sequer alcançam quem se situa em condições mais precárias. Nosso papel, enquanto socialistas, é desarmar a bomba implantada pelo capital para implodir a luta proletária. É certamente nosso dever, enquanto progressistas, lutar em defesa desses direitos. Devemos, no entanto, nos esforçar para que as lutas não se limitem à defesa deles, mas transbordem a discussão e se expandam para a construção de um projeto socialista.

¹: ‘Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo’. Vladimir Ilyich Ulyanov. 1ª Ed.: 1920.

²: ‘O Dia da Mulher’. Alexandra Mikhaylovna Kollontai. 1ª Ed.: 1913.

³: ‘A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado’. Friedrich Engels. 1ª Ed.: 1884.