Empatia, Josés e Marias

Não faz muito tempo, eu sentia raiva do seu Zé lá da roça que não “entendia” de política. Eu xingava também a dona Maria, por ter trocado o voto dela por um botijão de gás. Com meus livrinhos debaixo do braço eu me achava grande o suficiente pra dizer pra eles o que era certo ou não. Porque claro, eu era super instruída pra julgar os desinformados.

“Malditos desinformados! Por culpa deles o país não melhora.Como pode ser tão difícil pra eles entender que vereador não pode dar cesta básica? Eu entendi quando tinha 11 anos.”

Quanta ignorância…A MINHA.

Passei alguns anos culpando as vítimas pelos problemas que as assombravam diariamente. Da tela do meu notebook, sentada comendo Cheetos eu achava que o mundo era só aquilo ali: preocupação com provas, uns amigos pra discutir sobre Led Zeppelin… aquela rotina mediana e refinada com Maquiavel e Kafka. Cool, não?

De repente, um dia desses por aí, eu precisei que alguém me entendesse: “se coloque no meu lugar, pelo menos uma vez. Entende meu sofrimento!”. Resolvi parar pra me ouvir. Por que raios eu estava pedindo pra alguém algo que eu não faço por ninguém?

Ouvir, absorver, sentir. Um passo a passo importante, tutorial de se levar pra vida. Ouvir do seu Zé que ele não podia ir pra escola quando pequeno, porque tinha que ir cedo pra lavoura. Absorver toda a dificuldade da dona Maria pra sustentar a família, porque a grana tava curta, e os meninos com fome.

Sentir que cada pessoa é um mundo, com sua própria realidade.

Pra que ir atrás de tanta leitura, conhecimento e entendimento, se eu, ao invés de estender a minha mão, ajudava a mão invisível a massacrar seu Zé e dona Maria?

Nesse passo a passo diário eu vou crescendo, aprendendo com o mundo que é cada um. Vou assumindo minha responsabilidade de levar o pouco que sei até quem tem vontade de aprender. Porque agora sei que, pra eu conseguir ter acesso a Maquiavel, alguém não conseguiu ter acesso à escola.

Nesse aprendizado vou descobrindo a cada dia mais que o Estado não vai levar educação e informação para Josés e Marias. Porque Josés e Marias, quando bem informados, se tornam armas perigosas demais.

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