A terrível frase: “eu tô te pagando pra isso.”
A dura construção frasal “eu tô pagando” para justificar grosserias, hostilidade e omissão.
Quantas vezes na vida a gente escutou: “Mas eu tô pagando. então eu tenho direito!” Muitas né? Isso em todas as esferas. Da escola, a academia, ao serviço prestado, a diarista, ao restaurante até no trabalho. Mas pera lá, estamos vivendo em algum período de escravidão, onde quem é dono do dinheiro é também dono das correntes?
Viver em Brasília, ser bem escolarizado, ter uma renda bacana, um carro bom, um cargo público qualquer e um apartamento no Sudoeste/Águas Claras já é mais do que suficiente para se achar cheio de direitos e isento de deveres. Mas por quê? Porque existe essa relação tão nociva que destrói relacionamentos e autoestimas? Vamos desconstruir:
Vamos deixar o lixeiro sem emprego.
“EU pago impostos. EU trabalho duro. EU pago pra limpar essa cidade. Logo, isso ME enche de privilégios ao ponto de jogar lixo na rua, ou na calçada ou em qualquer outro local público até que algum gari venha e faça o seu trabalho. Que na maioria das vezes é invisível por mim. EU tô estudando é pra não ser gari. Já pensou?”
Já pensou se cada um fosse responsável pelo seu próprio lixo? Se cada um fosse lá na lixeirinha e jogasse seus dejetos produzidos? Inclusive os cocôs dos pets? :) O mundo seria muito melhor. Acredito que o que falta pra essa gente é um senso de coletividade. De responsabilidade com o próximo.
Vamos lá?
Mas eu já pago o seu salário. E ele é ótimo!
“Uai, você ainda não entregou isso? Você não é pago para reclamar. É pago para fazer. E você precisa de que mesmo? Já não tem tudo aí em cima da sua mesa? Você já não tem plano de saúde, refeição e um bom salário? O que mais você precisa?”
E essa relação que muitos “chefes” estabelecem com seus funcionários? Pera aí, isso é uma espécie de escravidão institucionalizada? Falta empatia, falta feedback, falta adequação. Os “empregados” que recebem-seu-salário-todo-mês-e-recebem-para-isso, não tem que reclamar se não fazem parte da estratégia da empresa, se não estão inseridos no contexto macro, pois são apenas meros trabalhadores que “não entendem nada de empresa”.
Numa busca de trabalhos com cada vez mais propósito, essa tríade salário-plano de saúde-vale PF não está mais satisfazendo muita gente. Especialmente as melhores cabeças da empresa, que querem mesmo é trabalhar em projetos grandes, propósito, envolvimento e consideração.
“O cara reclama demais” — contrata outro. E o cargo continua com alta rotatividade. O problema é sempre do funcionário, claro. Afinal, ele está sendo pago pra isso. Se não se adequou a empresa é uma pena.
O meu pai que paga essa escola!
“Professora, você não fala assim comigo. Meu pai que paga essa escola. Meu pai que paga o seu salário. Meu pai que paga tudo aqui nessa escola. Não me reprova. Meu pai que paga essa escola. Ih, nem adianta brigar. Meu pai vem aqui semana que vem bater boca com você, professora.”
Os pais ausentes que ostentam um cargo público de alto prestígio na capital colocam o moleque na melhor escola da cidade. E eles sempre repetiram esse discursinho “eu que pago” para os seus filhos em contextos do cotidiano. No restaurante com o garçom, em casa com a diarista e outras situações. Afinal, eles que pagam. É claro que o moleque vai repetir esse discurso. E sabe aonde? Na escola! E o que acontece? Nada. Existe um desrespeito com o docente nessa esfera de não poder “desagradar” nenhum estudante filhinho-de-papai por que “o-pai-dele-paga-a-escola”.
O cliente tá pagando. E caro!
“Vamos lá, galera. Entregar esse job rapidão porque senão a gente perde o cliente. Pessoal, ainda é meia noite. Vamos virar a madruga aqui. Eu peço pizza pra gente trabalhar mais de boa. Altera TUDO! A esposa do cliente não gostou. E ele tá pagando né?”
Quem trabalha em agência de publicidade já sabe desses prazos insanos, da falta de reconhecimento profissional e da necessidade de existir um trabalho criativo enlatado, pré-pronto, genial e que seja do gosto do cliente. Afinal, ele tá pagando. E na contramão, existe a necessidade de lidar com o ego dos outros profissionais “que são mais bem pagos”.
Como sair dessa escravidão institucionalizada por meio de uma relação nociva com o dinheiro e com o que ele proporciona? Quantas pessoas se submetem a essa relação por causa do cartão de crédito? Por causa do carro novo e dos cheques pré-datados? Estamos todos em rodinhas de hamster?
A solução para isso eu ainda não sei. Mas pode começar com uma conscientização do seu papel no mundo e que você pode tentar ser livre sim. Saindo dessa escravidão por bens supérfluos e excessos de confortos e privilégios que a classe média acha que tem. :)
Veja bem: acha.
“O pior escravo é aquele que pensa ser livre”. Goethe