Anteontem eu bati o carro

O que isso me mostrou é que foi interessante.

Terça-feira, 23 de agosto , Universidade de Brasília, 08:17 a.m.

Às terças-feiras pela manhã, eu tenho aula de morfossintaxe do português e ela começa às 8 da manhã. Deixei minha caroneira no prédio ao lado e fui em direção ao estacionamento para tentar achar, atrasada, uma vaga próximo da sala. Impossível. Quem transita na UnB esse horário sabe bem do que eu tô falando. Então, fui procurar outra vaga e nesta procura, eu bati o carro.

Para contextualizar, na noite anterior, eu havia baixado um set de músicas tosca-trash no celular. Tinha DigDig Joy, dança da cordinha, bumbum granada, Mc Brinquedo e essas coisas maravilhosas (mas, Dani, tu não é do rock?). Então, na hora da dança da cordinha, ouvindo o fatídico É o Tchan, pensei por um segundo no exercício que eu ia fazer na academia. Em vez de parar atingi bruscamente o carro vermelho de uma moça que vinha na direção perpendicular (obrigada, geometria). Ela estava certa. Eu, errada. Errada por um segundo idiota de distração. Errada por pensar no meu treino da academia. Errada.

A moça desceu do carro gritando. “Porra, você devia ter parado, cara!”. Eu, ainda atônita, disse: “É, eu sei. Me perdoe. De verdade. Vou pagar o prejuízo. Mas por favor, se acalme”. Quem sabe o quanto de barulho uma batida faz e ver o carro da moça rodando e indo parar longe, sabe bem o quanto é desesperador. Fiquei calada no carro pensando. “E se eu tivesse sem cinto?” “E se fosse mais forte?” De verdade, quando a moça desceu do carro gritando fiquei aliviada, feliz que ela tava viva e me deu vontade de dar um abraço nela, tamanho o meu desespero.

Pensei na vida, na morte da bezerra, no esporro da minha mãe, na grana que eu ia gastar pra arrumar um carro-sem-seguro, nos ônibus que eu iria pegar para chegar na UnB e claro, na minha vida. Pensei o quanto tudo pode ir embora em um segundo. Em um mísero segundo de distração. Não. Eu não estava mexendo no celular, não tinha bebido, não tomo remédios controlados mas fui acometida de uma distração muito boba. Coisa de gente que confia demais no que está fazendo. Errada de novo.

Liguei para minha mãe. Ela me levou no lanterneiro. O caminho todo, nós duas de carro, pior do que ouvi-la brigando e gritando, foi o silêncio. O silêncio da minha mãe me deu vontade de chorar. Mas não podia. Se eu chorasse ia ser pior por que ela ir brigar e depois ficar em silêncio. Estive satisfeita apenas com a segunda opção, apesar de ser mais dolorosa.

Fomos a um lanterneiro. Ele olhou o carro e deixamos o carro lá mesmo. Depois, cheia de fome, fui almoçar com ela. Paguei o almoço para ver se ela ficava mais legal comigo. Não adiantou, mas tudo bem. Depois disso, ela teve um insight: “Será que a Tita ainda trabalha no salão de beleza aqui perto?” — Tita era uma amiga de muitos anos dela, que há mais de vinte anos ela não via.

Para nossa surpresa, a Tita, já muito velhinha, a reconheceu e rolou uma sessão nostalgia. Rimos da época, do primeiro corte de cabelo da minha irmã, que agora tem 23 e dos tempos que passaram, que para nossa surpresa, talvez rápido demais. Despedimo-nos da Tita e fomos visitar uma outra amiga de minha mãe que eu não via há tempos e ela está passando por uma depressão. Ela nos agradeceu a visita e disse:

“Muito obrigada pela visita. Eu amo receber visitas e muitas vezes me sinto muito sozinha aqui. Obrigada mesmo. Meu coração se alegrou.” — tem coisa mais energizante? Se tiver, ainda quero descobrir.

Depois disso, ela ficou melhor e conversamos normalmente. Ainda bem.

Um dia antes, segunda-feira 22 de agosto, em casa, 17:00 p.m.

Na semana anterior, inclusive no fim de semana, passei por uma grande crise existencial que não tinha há tempos. Questionei a minha existência, minha autoestima estava um lixo, não estava conseguindo organizar a minha rotina e as cobranças comigo mesma estavam surreais. Queria muito poder gritar sem ninguém me chamar de maluca e sem incomodar os vizinhos. Mas não deu. Então, fui em busca de artifícios para tentar dar uma animada na vida. Já que a balada não tem funcionado mais, tampouco o álcool.

O set de músicas trash foi pensado exatamente para isso. Para dar um up e aquela animação que eu precisava para malhar. Afinal, tem gente que parece que fareja o fracasso da gente. Por que quando você tá mal, pode ter certeza que o universo pode conspirar para que você possa se sentir pior. É tudo uma questão energética. Correr, suar, puxar uns ferros e garantir umas endorfinas iria ajudar. E ajudou. O set foi utilizado com sucesso no dia posterior.

Quarta-feira, dia 24 de agosto, Smart Fit, 09:40 a.m.

Sabendo que o meu carro estava na oficina, mediante aos acontecimentos anteriores, além de uma semana anterior que havia sido péssima, nada melhor do que dar uma corrida. O suor pode ser renovador. Como ainda não tinha conseguido chorar, decidi lavar a alma de outra forma: malhando.

O set de músicas trash foi excelente. Mas pulei a dança da cordinha, pois me lembrou da batida. Malhei com raiva. Sempre acho que quando a gente malha com raiva, a gente tende a esforçar mais o corpo, correr mais rápido, pegar mais peso e dar um máximo de desempenho. Pelo menos a gente tenta. Ruins são as dores no outro dia. Mas a sensação pós-malhação é maravilhosa. O difícil é ir à academia. Mas é barreira a ser quebrada, como todo hábito.

Andei o dia todo de ônibus nesta quarta-feira. Tive que acordar uma hora mais cedo (5 a.m.) e chegar às 23h em casa. Mas andar de ônibus é algo que eu gosto e por mais estranho que possa parecer, me energiza pra caralho. Não sei explicar o porquê, mas eu acho muito bom. Acho legal demais observar as pessoas, ler um livro e não ter o stress de dirigir. Vide situações anteriores.

Sempre tive medo de dirigir. Quando eu finalmente achei que eu tava dominando a arte, me acontece uma bizarrice dessas. Excelente. Serve para que eu fique mais atenta. E a gente tem dessas. Contei para o porteiro e ele disse: “Dani, quem bate o carro é só quem sabe dirigir. É quem manja.” Achei confortador. De verdade.

Hoje, quinta-feira, 25 de agosto

Tive que acordar cedo para resolver umas burocracias. Sim, elas brotam. Peguei o W3 Sul no centro de Taguá. O ônibus estava vazio, mas suficientemente legal para observar as pessoas e a cidade. O motorista tinha olhos azuis e um sorriso belíssimo. “Bom dia!”, eu disse. Ele retrucou “Bom dia, moça!”. — gosto disso. São temperinhos de energia para o dia.

Desci no Setor Comercial Sul, fiz o que tinha que ser feito e fui andando para o Setor Bancário, onde era o meu antigo escritório. Vi alguns amigos, almocei com uma amiga muito querida, tomei café com outra amiga maravilhosa. E lá se vão mais pitadinhas de energia. É como se fosse o meu balãozinho do “The Sims” carregando para ficar verdinho. Depois, tive que ir ao CONIC resolver outras pendências. Eu amo o CONIC, portanto não foi das maiores obrigações.

No CONIC, fui surpreendida por uma loja de vinis e fitas K-7. Meu Deus, que nostalgia. Muitos vinis raros, álbuns maravilhosos, vinis baratos, bolachões cheios de história. Fitas K-7 também. E claro, aquele som inconfundível que só o disco de vinil tem. Que coisa maravilhosa.

Esse vinil. Ah, esse vinil. Essa álbum. ❤

Comprei alguns e achei um, que em especial, eu adoro. É o Gal Tropical, que tem uma das minhas músicas preferidas dela “Meu nome é Gal”. ❤ Comprei-o por uma bagatela. Minutos de felicidade procurando vinis e lendo as dedicatórias nas capas. Quanta nostalgia, quanta história, quanto tempo, quanta vontade de tempo, de vida. Relembrar, também é viver.

Fui andando até a rodoviária central de Brasília para pegar o 110 e ir para a UnB. A rodô é também um local em Brasília que reúne todo tipo de gente, todo tipo de vida, todo tipo de coisa. Um ecossistema cheio de sonhos, de verdades, de vaidade, de pressa, de saudade, de vontade, de insatisfação, de reclamação e por quê não, de amor? São tantas idas, vindas, chegadas, partidas e sonhos. Quanta vida pulsante há. Como a vida é simples.

A rodô! Meu novo point agora sem carro. :)

E a vontade que deu de comer um pastel da Viçosa (vulgo Viscosa?) — pena que as minhas condições lípidico-adiposas não permitem. Lembra da baixa autoestima relatada anteriormente? Pois é. Respirei fundo. Sonhei com pão integral, alface e água.

SAUDADE, pastel de calabresa

No caminho para a UnB, me deparei com o muro erguido na Esplanada. O muro que separa os coxinhas do pão-com-mortadela. Esquerdinhas e diretas. Uma simbologia tristonha quando a gente percebe que essa separação incitada não faz o menor sentido, mas politicamente é poderosíssima. Sem entrar em questões político-sociais, me vejo fazendo parte de um momento histórico para o país. Só não sei para onde vamos. E quem sabe?

Da janelinha do 110, o muro de Brasília

Na UnB, peguei alguns contos de Rawet para a aula de literatura. E no meio do caminho, pensei em como escrever este texto. Não escrevo tem um tempo. Coisa de duas semanas. Isso é muito doloroso às vezes. Mas as palavras não vem. Pensei que escreveria assim, como é o texto. Como ela tem que vir, fluido, sem cortes, sem amarras mas cheio de sentimentos.

Pensei na vida, na aventura. Pensei que se eu não tivesse batido o carro, eu não estaria aqui agora escrevendo sobre isso. Eu não teria andado de ônibus, não teria visto a Tita, não teria ido visitar uma amiga do meu pai, não teria encontrado o vinil da Gal e nem o vinil do Floyd. Eu estaria, sob um sol escaldante, procurando vagas no Setor Comercial Sul. Mas não. E como eu acredito que eu estou exatamente no local que eu devo estar, na hora que devo estar, deixo aqui registrado o meu agradecimento pela vida e por poder pagar os R$1.100,00 que deu o conserto do carro.

Estou pronta para próximas aventuras. Amar, talvez. Não. Um amor não correspondido pode ser mais perigoso do que bater o carro.
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