Eu encontrei, quando não quis

o troco em chocolate, por favor.

Parece-me mesmo bem apropriado reparar as pessoas na fila do pão. Todo mundo que me olhar, por exemplo, vai perceber que as roupas estão meio desgrenhadas, o cabelo bagunçado e vai se admirar na força que eu emprego ao apertar os brioches. Seriam os brioches? Seriam as brioches?

Não sei. Penso apenas que devem estar macios pois se eu não levar os novinhos para casa, minha mãe me senta a maior bronca. No mais, esperaria encontrar, quando não quisesse, o grande amor da vida na fila do pão. Mas ele se surpreenderia ao perceber que eu levo mais pães do que o esperado ou que compro chocolate com o dinheiro do troco.

Não. O grande amor jamais repararia isso. Ele entenderia que eu gosto de comer para caralho e seríamos grandes amantes comedores de pães e chocolates. Não. Definitivamente parece-me ser alguma daquelas divagações que não parecem caber sobre o amor nas horas intermináveis que se passam na fila para pegar pãezinhos quentinhos no começo da manhã.

Sim. Aquele momento ideal para encontrar, quando não quis mais procurar o meu amor, o vizinho gatíssimo vestindo samba canção xadrez e camisa branca. A barba também desgrenhada, o cabelo então nem se fala. Pediu cinco pães, pegou o queijo na sessão de frios e comprou kitkat com o troco.

Não. Ele não olhou para mim. Ainda bem. Eu havia me escondido estrategicamente atrás da prateleira dos produtos de limpeza. Afinal, eu precisava mesmo de um banho. E também de comprar absorventes, que na padaria eram sempre mais caros, mas a situação me pedia urgência,

Moça, seu troco.

Sim, comprei chocolates. :)

Like what you read? Give Que se Dani a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.