um dia eu largo tudo

Dia 2 — e vou me embora para Pasárgada

Sou muito fã de poesia/poema. E adoro os desorganizados mesmo. Sem riminhas parnasianas. Para mim, quem solta um poema cheio de palavras que fazem o maior sentido para quem escreveu mais do que para quem lê, é um verdadeiro gênio. No mais, vamos ao meu poema preferido. De Bandeira:

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu năo sou feliz
Lá a existęncia é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a măe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilizaçăo
Tem um processo seguro
De impedir a concepçăo
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de năo ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
 — Lá sou amigo do rei — 
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Eu amo esse poema porque ninguém sabe o que é Pasárgada. Na verdade, em pesquisa rápida, descobri que foi uma cidade da antiga Pérsia. Seria essa a Pasárgada de Bandeira? Tenho quase certeza que não.

A minha Pasárgada é um refúgio. Um lugar de paz, respeito e silêncio. Um lugar de completude. E a minha Pasárgada pode ser em qualquer lugar. Num livro, numa viagem, num sonho bom. Naquele lugar especial que você gosta de revisitar. A Pasárgada pode ser a companhia de um bom amigo. Aquele que você fala por horas e anoitece sem que você perceba.

Entender o que é a Pasárgada, o nosso refúgio, é saber também das metamorfoses e compreender que o prazer se modifica com os tempos. Mas é preciso sempre se permitir ter prazer e dar prazer a alguém. Nos mínimos detalhes: da bala de hortelã a caneca de café quentinho. Pequenos cuidados cotidianos e carinhos com a mão levinha.

É preciso se aquecer das rudezas do dia a dia. Parar de ler notícias alarmantes no jornal e tentar silenciar para o pleno exercício da intuição. O mundo lhe parece cruel demais?

Vá embora para Pasárgada. ❤

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