Gratidão que escraviza

Gratidão tem por definição ser o “reconhecimento de uma pessoa por alguém que lhe prestou um benefício, um auxílio, um favor etc.; agradecimento”. Isto significa a expressão dos nossos sentimentos em valorizar mais o que temos, o que fizeram por nós. Todos nós devemos ser gratos a quem nos socorre, acalenta, ajuda e está conosco para o que der e vier. E devemos, também, demonstrar esta gratidão com nossas atitudes, retribuindo o que fizeram por nós, sempre que possível.

Não são poucas as pessoas nos incentivando diariamente à prática da gratidão. Existem até cursos sobre isso. Os benefícios são inúmeros e verdadeiros. Uma rápida pesquisada no Google e tcharã: aparecem diversos artigos sobre o que a gratidão pode fazer por nós. Não vou aqui repetir os inúmeros benefícios da gratidão, porque você, provavelmente, já leu um punhado de artigos sobre isso. Talvez já tenha até experimentado muitos desses benefícios. O intuito deste texto não é incutir em sua mente que você precisa ser grato. Isso você já sabe.

Não duvido desses benefícios. Não mesmo. Acredito muito neles. Porém há outra face nessa moeda. E não falam pra gente. Então, aprendi sozinha. Quebrando a cara mesmo, sabe? Não lembro de quem é a frase, mas li certa vez que “o erro é um excelente professor.” E é mesmo.

Fiz terapia por um tempo. Precisava me entender, me amar novamente. Aprendi demais sobre mim. Claro que a gente sempre tem algo a aprender, mas foi um período muito especial. Numa das sessões, abordando traços do meu comportamento que me aborreciam, o psicólogo me perguntou porque eu fazia o que fazia. Eu, prontamente respondi: “por gratidão.” Ele rebateu de imediato: “Mas que gratidão é essa que faz você fazer o que te aborrece?” Obviamente, não tive resposta. Fui pra casa e fiquei pensando nisso. Pensando e observando, não só o meu comportamento, mas também o comportamento de outras pessoas. E cheguei à conclusão que, na outra sessão, passei para o psicólogo: eu me tornara escrava da gratidão. Eu nunca havia ouvido essa definição antes e nem o profissional que me acompanhava à época. Palavras dele: “interessante colocação e certeiras as palavras.”

O fato de alguém ter feito algo de bom pra você, não pode torná-lo escravo. Você ainda tem o direito de não fazer, de não ir, de dizer não. E isso não é ser ingrato. Significa que você se respeita, que você tem o domínio sobre suas decisões, que você tem consciência das atitudes que toma. Talvez você esteja achando isso meio egoísta. Foi assim que me senti no início, quando comecei a mudar minhas decisões. Mas não é egoísmo se você equilibra as coisas, se não há prejuízo ao outro. Egoísmo é nunca pensar no outro. Egoísmo é passar por cima de tudo por causa de si, não se importando em como isso vai prejudicar o outro. Ingratidão é sempre ser beneficiado pelos outros sem lhes dar nada em troca. É virar as costas para o que já fizeram ou fazem por você, não reconhecendo os benefícios que o outro lhe fez ou faz.

Não estou dizendo que você deve abusar da boa vontade alheia e que deve pensar só em você. Não é isso. Estou dizendo que você pode ser muito grato, mas que não deve se tornar escravo dessa gratidão. Não é porquê alguém te ajudou numa situação complicada, te “salvou” de alguma forma, que agora você tem um débito infindável com essa pessoa. Em meu caso, eu pesava somente o que haviam feito por mim. A lista de benefícios era interminável e verdadeira. O que eu não conseguia enxergar era o quanto eu também havia feito por aquelas pessoas. Quantas coisas boas, quanto auxílio, quanto apoio. Eu não devia nada a elas. Nem elas a mim. Era uma parceria cheia de amor e companheirismo. Mas eu só via o que o outro fazia por mim. Portanto, sentia-me obrigada a dizer “sim” em todo o tempo. Ainda que isso significasse me desrespeitar sobremaneira. E, claro, me trazia um incômodo.

Não espere que o outro entenda o que você não diz claramente. Vou reiterar com outras palavras: ninguém tem a obrigação de entender o que você não fala abertamente. E falar abertamente não significa ser rude, ser áspero. Significa se fazer entender de forma simples. Isso é um exercício.

Dependendo do tempo que você estiver escravo da gratidão, o primeiro “não” vai lhe parecer um pecado. Algumas coisas que podem acontecer com você ao se posicionar a seu favor, são:

1. As justificativas vão se amontoar, na intenção de fazer com que o outro compreenda o seu lado. E ainda que o outro diga “tá tudo bem”, pode ser que o nó no peito se aperte e a vontade de se contrariar queira sufocar você. Não ceda.

2. O medo de perder aquela amizade. Ora, este é um medo comum. A gente passa tanto tempo dizendo apenas “sim” que ao dizer “não” a gente teme que a pessoa acabe por nos riscar de seu hall de amigos. E como vencer isso? Ora, se a pessoa deixar de te considerar por você ter passado a dar mais atenção a si mesmo, é porque ela, provavelmente, não era sua amiga de verdade. Se este for o caso, você se livrou de um vampiro emocional.

3. Barganhar suas decisões. Outra coisa comum de acontecer. A gente sempre vai achar que dá pra diminuir o tempo a que nos dedicaríamos ao que havíamos planejado pra fazer o que o outro quer. Se isso não lhe causar desconforto, tudo bem. Mas se é só pra atender à demanda alheia, preste atenção.

4. Se sentir egoísta. O hábito de se colocar em segundo plano já está tão entranhado que ao se priorizar, você, provavelmente, vai se sentir um grande egoísta. Mas não é o caso. Você está tomando de volta as rédeas da sua vida e decidindo por vontade própria e de forma consciente, ao invés de deixar tudo como sempre foi.

5. Medo do que vão pensar de você. É claro que essa mudança vai causar estranheza em quem convive com você. Mas quem te conhece e ama de verdade, vai entender. E vai ver que está te fazendo bem. Algumas coisas vão mudar, é verdade. Mas não significa que seja pra pior. As vezes as catástrofes acontecem só na nossa mente. Você vai continuar tendo os amigos que tem, aqueles que são verdadeiros. Só vai se afastar quem não te respeita ou quem só queria te sugar.

6. Você pode se incomodar quando os outros não te solicitarem. Talvez seja bem estranho que o outro faça algo sem você, sem nem te dizer o que intentava fazer. Se isso acontecer, pense no quão bom é ver que seus amigos estão encontrando formas de se desenvolver e como estão conseguindo progredir por si. Veja pelo ângulo do quanto eles estão aprendendo. E, claro, o que você pôde fazer por você mesmo por não ter se envolvido com aquilo que ele está conseguindo fazer sozinho.

Você precisa manter em mente que não há hierarquia na gratidão. Quem fez ou faz algo por nós, não está acima de nós. Não se sinta inferiorizado por que alguém fez algo por você. Sinta-se grato, amado e retribua sempre que possível. Mas não seja escravo da gratidão. Você pode e deve fazer algo pelos outros. A gente se sente bem quando ajuda alguém. Mas se isso passa por cima dos nossos desejos, deixa de ser saudável.

As pessoas sempre terão suas urgências. Se a gente atende a todas elas, nossas urgências se acumulam. Passe a observar que muitas urgências das pessoas não são tão urgentes assim. Em muitos casos é preguiça de arregaçar as mangas e fazer. Até porquê, tem você pra fazer por eles. E, enquanto você se ocupa daquela tarefa, eles desenvolvem outra coisa. Não os culpe. Você pode dizer “não”. Entenda que a sua vida é de sua responsabilidade. E, repito: não precisa ser rude pra isso. Às vezes é só ser claro: “estou ocupado. Não posso fazer isso. Tente esta alternativa…” E deixe que cada um se responsabilize por seus afazeres.

Não estou dizendo que é fácil ou que você vai colocar tudo em seu devido lugar nos próximos 20 minutos. Não vai. Mas você pode começar essa mudança já. Vai levar um tempo até que você se acostume. Vai levar um tempo até que os outros se acostumem. Mas vai valer a pena.

Pra encerrar, quero que você entenda que isto não é uma apologia ao egoísmo. De forma alguma! Também não é apologia à solidão, ao egocentrismo, ao individualismo. Não! É uma apologia ao amor próprio, à ascensão das suas ideias, ao seu bem estar. E, também, uma apologia ao auxílio consciente. Ajude seus amigos, sim. Ninguém é feliz sozinho. A gente precisa de gente do nosso lado. Às vezes, remaneje suas tarefas a fim de auxiliar um amigo que precisa do seu apoio. Esteja presente. Socorra. Apoie. Seja o ombro amigo. Ouça. Exorte. Encoraje. Mas não se anule pra isso. Não se sinta obrigado a dizer apenas “sim” pra quem te ajuda. Use a gratidão para o seu crescimento e daqueles que estão próximos a você, mas não seja escravo dela.