À procura do berço perfeito

A saga de um pai designer


É de praxe que um pai tente usar suas habilidades para tornar o nascimento do seu filho um momento único e especial. É comum ver um músico compor uma linda canção, um escritor criar um poema, um fotógrafo produzir um maravilhoso ensaio.

Mas, e um pai designer?

No meu caso, desde que soube que estávamos grávidos, minha cabeça se ocupa em pensar como criar um “ecossistema” amigável para receber uma nova vida. E essa reflexão tem me feito perceber que muitos objetos relacionados ao universo infantil poderiam ser repensados. Nosso ambiente reflete quem somos e, ao mesmo tempo, molda nossos comportamentos. Portanto, sinto que pensar em um entorno que seja acolhedor e estimulante deve fazer parte da educação que darei ao meu filho.

Uma das principais perguntas que pais grávidos costumam ouvir é: “o quartinho já está pronto”? Pois é, o quartinho. Para muitos pais isso parece ser simples, uma questão básica de decoração em que a originalidade se encontra, basicamente, no tema decorativo que você vai escolher: princesa, abelhinha, Peppa Pig, etc. As cores costumam ser estereotipadas (rosa para meninas, azul para meninos) e os móveis parecem bem definidos (cômoda, trocador, poltrona de amamentação e berço).

A princípio, pensei que o máximo que conseguiria mudar era essa insuportável dualidade rosa X azul. Que desserviço restringir já no início da vida o enorme espectro de cores do universo entre aquelas destinadas ao sexo masculino ou feminino!

Que nossos filhos se sintam à vontade para se relacionar com qualquer cor do arco-íris sem jamais achar que suas características físicas definem quais tons são apropriados ou não.

Mas conforme comecei a pesquisar o tema "quarto do bebê", vi que existem mudanças mais substanciais que podemos fazer e que até o ícone mais emblemático do quarto do bebê pode ser repensado: o berço.

O berço é a cama para bebê mais conhecida por nós. No entanto, um crescente número de pais criticam sua funcionalidade, devido à similaridade com cercados, prisões e gaiolas. De fato, um berço é o local onde a criança dorme, mas quem detém o controle são os pais. As crianças ficam presas em seu interior e, para sair, precisam chamar, chorar, berrar, espernear.

Fiquei pensando na mensagem que este objeto transmite para o bebê e quais as suas possíveis consequências educacionais. Por sorte, já existem respostas interessantes para essa questão e uma solução que a cada dia se torna mais popular é a cama montessoriana.

Maria Montessori foi uma pedagoga do início do século XX que tinha como principal premissa a ideia de que a criança é o centro de sua própria aprendizagem. Portanto, cabe aos adultos a missão de disponibilizar um universo rico de estímulos no qual a criança tenha autonomia para explorar e descobrir. Dentro dessa filosofia, o quarto de uma criança precisa ser projetado para que ela tenha suas coisas ao seu alcance, tornando-se um grande espaço de aprendizagem. Diferentemente do berço comum, em uma cama montessoriana o colchão fica próximo ao chão e sem cercas ao redor, possibilitando que a criança entre e saia quando quiser, sem precisar chamar por um adulto.

Ao conversar com pais que adotaram a cama montessoriana, pude diagnosticar que essa parecia ser uma resposta muito mais interessante para o desenvolvimento de um bebê. No entanto, quem usou este mobiliário desde o início da vida de seu filho revelou que ele é muito inconveniente nos seus primeiros meses. Isso porque inicialmente os pais são muito solicitados durante o dia e a noite para retirar o bebê da cama e isso se torna muito desconfortável, pois é preciso abaixar toda vez até o chão para pegá-lo. Além disso, no início de sua vida, o bebê ainda não possui mobilidade para entrar e sair da cama, tornando inúteis as vantagens da cama montessoriana.

A solução

Pensei que o móvel ideal seria um híbrido que unisse a facilidade que um berço proporciona para os pais nos primeiros meses de vida do bebê com as vantagens que uma cama montessoriana possibilita para uma criança explorar seu quarto sem depender de um adulto.

Assim surgiu o berço Uri, que pode assumir o formato de berço e de cama a partir de um ajuste da posição do estrado.

Um aspecto curioso da minha pesquisa foi o fato de que, assim que revelei ao mundo que estava grávido, recebi três ofertas de doação de berço. Apesar da alegria de sentir a generosidade dos amigos, fiquei pensando em como um mobiliário grande e caro como um berço costuma ser usado por tão pouco tempo. Esta reflexão marcou não só o início do projeto do berço Uri (que, por tornar-se uma cama, pode ser usado por uma criança até os seus 5 anos), como me fez refletir sobre o quão efêmero pode ser um quarto de bebê. Me parece fundamental que os mobiliários do quarto não se tornem desnecessários já nos primeiros anos da criança, mas que sejam de serventia para a casa em diversas situações futuras de uso. Ou seja, não utilizar uma poltrona para amamentação, mas uma poltrona confortável que também sirva para a fase latente. Não comprar uma cômoda de bebê, mas uma cômoda que também possa ser usada para guardar os pertences do bebê.

Berço open source

O processo de fazer um berço para meu filho foi tão rico que pensei em facilitar a mesma experiência para outros pais que não são projetistas. Afinal, é muito simbólico para um pai construir literalmente o berço que vai receber e acolher seu filho no mundo.

Para convidar outros pais a vivenciarem esse processo, desenvolvi um projeto capaz de ser executado por alguém com poucos conhecimentos em construção. A simplicidade está na fabricação digital.

O arquivo do projeto estará disponível para download em breve, após passar por diversos testes de segurança, de modo que ele poderá ser fabricado em qualquer lugar do mundo através de uma máquina fresadora CNC. Basta entrar em contato com o makerspace mais próximo de onde você mora e encomendar o corte. É, além de tudo, um convite aos pais para se familiarizarem com o mundo maker que será parte crucial do universo dos nossos futuros filhos.

As peças do berço são produzidas com uma única chapa de compensado
E depois são montadas e coladas em um processo simples e intuitivo

Feito com materiais de fácil acesso (compensado, parafusos e linha), a fabricação do berço Uri é simples, pois o corte complexo é feito pela fabricação digital. Os pais serão responsáveis pelo acabamento e montagem, tarefas que exigem um nível mais baixo de especialização.

Etapa final de acabamento com cordão

Espero que o berço Uri seja somente minha primeira manifestação do processo de pensar a criação do meu filho sob a lente do design. E desejo contribuir com outros pais dispostos a criar novas pessoas para habitar um novo mundo.

Dedicado ao Uri, meu filho, que está prestes a nascer. ❤

por Barão di Sarno