A epopeia calçadista

“Você viu essa promoção na Privalia?”

Li a mensagem da minha amiga um pouco apreensiva. O link me direcionou para uma tela onde pularam 4 sandálias metalizadas cor de rosa. Revirei os olhos, e estava prestes a fechar a aba do Chrome quando meu celular apitou de novo:

“Tem do nosso número!”

Acho que levei uns 30 segundos até confirmar a compra.

Oi, meu nome é Maíra, sou designer de produto e pesquisadora na Questtonó. Tenho 1m82 e calço 41.

O universo da moda e do design de produtos como um todo segue uma logística industrial que não podemos ignorar. Produzir objetos em massa faz com que eles se tornem acessíveis. Wedgewood criou a indústria da porcelana e permitiu que cada vez mais ingleses tivessem acesso a objetos que antes sequer cogitavam possuir. Foi na Inglaterra também que a indústria têxtil democratizou a moda.

Mas a industrialização tem uma consequência: para baratear custos, algo que antes era feito sob medida, considerando as particularidades de cada usuário, passou a ser projetado sob uma logística que considerava a média populacional.

E isso quer dizer algo simples: uma mulher de 1m82 e pé 41 simplesmente não tem acesso a sapatos. E isso é um problema.

É um problema porque, como todo mundo sabe, nós precisamos de sapatos para a maioria das atividades que acontecem fora de casa — é um instrumento essencial para a vida pública. Esse, aliás, é um argumento bastante utilizado por ativistas da moda plus size, e do qual vou me apropriar: a moda permite a sociabilização dos indivíduos. Não ter roupas condena uma pessoa aos limites do espaço privado, porque a torna incapaz de seguir códigos de vestimenta intrínsecos em nossa sociedade. E não ter acesso a sapatos cria a mesma saia-justa.

Passei por isso em tantas ocasiões que seria capaz de escrever uma grande epopéia calçadista. Uma vez fui a um casamento de All Star e vestido, porque na época não consegui encontrar nenhum sapato. Meu irmão, que calça 46, já foi obrigado a andar com o tênis molhado porque pegou chuva e nenhuma loja de Havaianas tinha um chinelo do tamanho dele. E enquanto muitas amigas e conhecidas escolhem o modelo dos sonhos em diversas lojas, posso afirmar que a maioria dos sapatos que possuo foram adquiridos não por gosto, mas por pura necessidade, na máxima “é o que tem para hoje.”

Gosto de sapatos porque, com poucas exceções, não posso tê-los.

A grande sacada de trabalhar com pesquisa é que temos a oportunidade de descobrir mercados invisíveis. Existem grupos de pessoas que já conhecemos a fundo, aqueles consumidores estereotipados que toda a marca, categoria e produto querem atingir. E aí existe o resto; uma enorme massa de indivíduos ignorados, que podem — e fazem a diferença — quando pensamos em criação e inovação. Isso porque inovação subentende explorar campos desconhecidos e descobrir potencial em quem, em um primeiro momento, sequer foi considerado.

Estar fora do padrão significa fazer parte, de alguma maneira, de um grupo de minorias. Mas quando somamos todas elas temos nas mãos uma maioria esmagadora e significativa de potenciais consumidores.

Muito se fala de representatividade, e num primeiro momento somos capazes de elencar aquelas que nossa sociedade torna óbvias: a invisibilidade das mulheres, da população preta ou dos LGBT+, por exemplo. Sob essa ótica, gostaria de convidar todos vocês, pessoas criativas, empreendedores, estudantes e curiosos, a olharem para o lado e questionarem a máxima da produtividade a menor custo que, há séculos, nos obriga a criar médias irreais que não correspondem à realidade.

Assim como as pessoas gordas desejam as mesmas tendências descartáveis e efêmeras que consumidores da Zara têm acesso e as pessoas baixas querem frequentar a sessão de adultos para poderem se vestir de maneira condizente à sua idade e ao estado de espírito, as pessoas altas e de pé grande querem comprar todo tipo de sapatos — sapatos funcionais, sapatos engraçados, sapatos de festa.

Segundo uma pesquisa online feita pela Pés sem Dor, os homens que calçam entre 44 e 48 representam 7% da população masculina. Somadas, as mulheres que calçam entre 40 e 43 representam 2,2% da população feminina entre 15 e 90 anos.

Pode parecer pouco, mas isso dá aproximadamente 2,2 milhões de mulheres — um espaço amostral extremamente interessante para novas e antigas marcas. Em um mundo com os olhos cada vez mais voltados às necessidades individuais do consumidor, já está mais do que na hora de ouvir a voz — e nesse coro minha voz também ressoa! — desse grupo enorme de indivíduos, que aguardam — ansiosamente — serem percebidos.

Como designer de produto, Maíra fez do limão uma limonada e aprendeu a desenvolver calçados: estudou no SENAI e se tornou confeccionadora e modelista de cabedais. Recentemente, fez um novo curso de especialização, dessa vez na UAL — University of Arts of London. Na Questtonó, atua como pesquisadora e estrategista. Em seu tempo livre gosta de picolé de limão e de passear com o Haru, um akita de 30kg.